sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O 'Rancinça' 'Urso-Cinça': O 'Foo' de Danilo

Ele já sabia quando era a hora certa: bastava o sol posicionar-se, brilhante, entre as robustas castanheiras, no finzinho da tarde morna de primavera, que o pequeno Danilo prostrava-se à varanda-galho da sua casinha, esfregando as mãozinhas ansiosas uma na outra, de olhinhos esbugalhados acastanhadamente alvoroçados voltados ao céu, à procura, afoitos. Via-a surgindo de longe, do mais alto dos galhos, num mergulho majestoso e preciso, o vento contra seus pelos ruivos e sedosos, quando, subitamente, vinha o momento que Danilo mais gostava: ela, elegante, abria os braços e, feito mágica ou coisa qualquer que o esquilinho não sabia explicar, ela plainava entre os galhos da floresta, garbosa, ziguezagueando entre os troncos, fazendo as folhas esverdeadas flamularem ao agito da sua enorme e felpuda cauda rubra. Ao passar por Danilo, rápida feito uma bala de canhão, ela acenava com as patinhas curtas, um sorriso interrompido pelos dentinhos salientes, e lá ia ela, sumindo na floresta densa em seu inusitado voo.




Danilo serpenteou pelo tronco da castanheira e saiu a correr pela floresta, que reverberava em fluorescência primaveril; atravessou uma trilha cercada de alvas margaridas, um atalho coberto de grama fresca, adornado com florescidas begônias, e cruzou uma floresta de pinheiros em cujos troncos brotavam excêntricas e requintadas orquídeas multicoloridas. Alcançou, esbaforido, uma caverna encrustada nos pés da montanha e bateu à tosca porta, com mãozinhas urgentes, berrando:

- CINCENTO! CINCENTO! Sou eu, amigo!

- Não tem ninguém em casa! - foi a resposta que veio lá de dentro, em forma de urro abafado pelas truculentas paredes de pedra.

- Não seja desagradável, urso - respondeu uma voz feminina e a porta da caverna abriu-se. - Olá, Danilo.

- Oi, Eduarda. Tenho um assunto de muita relefância para tratar com focês. Posso entrar?

A ursa-parda deu passagem para o pequeno esquilo, que encontrou o corpulento amigo urso jogado no chão da caverna, simulando um ronco profundo de quem dorme há dias. Eduarda, todavia, sentando-se ao lado dele, acotovelou-o, com força, na pança acinzentada e, muito dissimulada, disse docemente:

- Conte-nos, Danilo, o que está te afligindo? Cinzento está muito interessando em saber.

- Eu estou interessado é no jantar - resmungou Cinzento, aprumando-se, aborrecido.

- Eu não sei o que está acontecendo comigo - começou o roedor. - Tem essa esquila, minha vicinha, que não pula de galho em galho, como todos os outros esquilos. Ela é meio esquila, meio passarinha...

- O quê? - Eduarda interrompeu, estupefata. - Uma esquila-alada?

- Depois de um alce-árvore, essa baboseira não me surpreende em nada - comentou Cinzento, virando os olhos para o teto e coçando a enorme barriga.

- ...e ela abre as assas e sai foando pela floresta, e meu coraçãocinho parece que fai explodir, Cincento! - expôs Danilo, em meio à chuva de saliva e excitação.

- Um infarto fulminante! Tadinho, tão novo para morrer...

- Não seja besta, urso! - Eduarda reprovou-o, com outra cotovelada. - Não está vendo que o menino está apaixonado?

- Apaixonado? - Danilo, confuso, repetiu, pondo-se a mover em círculos pela caverna pouco iluminada. - E isso tem cura?

- Pergunte ao seu amigo rabugento - Eduarda respondeu, zombeteira, com um sorriso nas mandíbulas.


- Cincento, focê tá contaminado?


Grrrrrrrunhindo aborrecido, Cinzento virou para o outro lado, escondendo-se na penumbra da caverna a resmungar.





- Venha cá, amiguinho - Eduarda chamou, e o roedorzinho saltitou em direção ao ombro da ursa-parda. - O que precisa fazer é falar com ela, dizer, sinceramente, como se sente quando a vê,  explicitar as emoções que ela faz florescer no seu peito. De resto, você é o esquilo mais charmoso de toda a floresta, duvido muito que ela não se encantará com esse seu jeitinho de falar.


- Focê acha mesmo, Eduarda? - duvidou, inseguro, abobalhado por ser a primeira vez que lidava com sentimentos tão intensos.


- Eu e Cinzento garantimos o sucesso desta missão. Não é mesmo, urso?


- Danilo? Charmoso? - e Cinzento proferiu uma risada irônica a qual Eduarda não pôde repreender, desta vez, com seu cotovelo ossudo.

Cheio de si com os elogios de Eduarda e ignorando a zombaria do amigo urso, Danilo ia correndo de volta pela floresta, decidido a tentar qualquer aproximação com a esquilinha misteriosa de habilidades excêntricas. O sol mostrava-se pálido por entre a folhagem densa da floresta. Danilo, então, decidiu tomar um caminho mais curto, às margens do rio, para chegar à casa antes que anoitecesse. Foi lá, no charco úmido do pântano que se formava no encontro dos rios, que topou com um parente distante, um primo com quem pouco convivia, um  castor de aparência abatida, enlameado, a crosta de sujeira envolvendo-o da cabeça esguia - na qual dois olhinhos traiçoeiros investigavam tudo com curiosidade - à cauda achatada que lhe servia de pá, um utensílio de trabalho preso ao próprio corpanzil gorducho. Trabalhava numa barreira enorme, feita de lama e galhos, que ligava uma margem à outra numa ponte arcaica e improvisada. Chamava-se Nestor e, ao notar a presença pouco provável de Danilo ali, largou a labuta infeliz e assoviou:

- Ei, ei, ei... Veja só o que o vento trouxe. Como vai, primo?


Danilo parou de súbito quando o castor aproximou-se e envolveu-o nos braços, enlameando seu pelo.


- Olá, Nestor.

- Que engraçado 'ocê aparecer aqui hoje - disse o castor musicalmente, o bote pronto a ser dado. - Aquela coruja fofoqueira andou dizendo por aí que 'ocê está apaixonado, veja só. - Danilo esbugalhou os olhos, as palmas das mãozinhas começando a suar. - E ainda: por uma esquila-passarinha!

- F-f-f-eja bem, Nestor - gaguejou Danilo, afastando-se um tanto, pronto para fugir quando preciso do venenoso castor. - Nem tudo que a Corina fala por aí pode-se acreditar, focê sabe.


- Ufa, era só boato então, primo? Porque 'oce deve saber que esquilas-passarinhas só namoram com bichos que também podem voar, né? - Nestor sorriu, debochado, enquanto o coração de Danilo começava a trincar - É sorte minha ter essa cauda que me serve de hélice, 'ocê não acha, primo?


- MAS EU TAMBÉM SEI FOAR! - desesperou-se Danilo, ao que o castor, cínico, fingiu surpresa.


- Então eu já sei o que teremos de fazer. Amanhã, pela manhã, encontraremo-nos à beira do Abismo da Solidão. Faremos a apresentação de nossas habilidades no voo e aquele que sobreviv-- quero dizer, aquele mais hábil e perfomático terá sua chance com a esquila-passarinha.





- M-m-mas... mas Nestor...


- Que é, primo? 'Ocê tá com medo, é?


Ficou, assim, marcado o duelo entre os dois roedores alados. Um desafio entre a ingenuidade de um, e a falta de caráter de outro, pode-se dizer.



*


Os primeiros raios opacos de sol iluminavam o Abismo da Solidão, refletindo na bruma que circundava o paredão de pedra, feito uma boca esfumaçada exalando o fim da madrugada primaveril, uma bocarra de dragão para a qual Danilo olhava, apreensivo, tremendo da ponta dos dedinhos afiados às orelhas felpudas. Um vento furioso vinha lá debaixo e contornava o abismo, absoluto, em cuja força trouxe uma ave de plumagem negra e olhos ágeis arregalados, a piar de asas abertas:

- Daniluuuu-uhh.

O esquilo acenou de mãozinhas trêmulas e a coruja fez um pouso conturbado, livrando-se do fluxo do vento que subia em direção ao céu, a clarear serenamente.

- Achei que focê não firia, Corina. Trouxe o que te pedi?

- Aqui estão-uh-uh - e lhe entregou duas de suas penas, pretas, grandes e macias. - Você tem certeza do que está fazendo, Danilo-uuh? A última vez que noticiei jornalisticamente o voo de bichos que não voam foi um concurso de galinhas que se espatifaram no chão.

Danilo segurou cada pena com uma das patinhas e as agitou no ar, para cima e para baixo, num espevitado fluxo contínuo. Esbaforido, ele gritava:

- Foar cansa, Corina!

- Mas 'ocê ainda está de pés no chão, primo.

Era o lameado Nestor, de braços cruzados, rindo-se do esforço de Danilo. Corina torceu o bico e foi tirar satisfações com o castor, as penas ouriçadas:

- Que tal você torcer esse rabão e mostrar pra gente o que é voar, seu baderneiro-uhhh.

- E quem chamou a Srta. Fofoca para o evento, posso saber? - Nestor caçoou, as bochechas infladas com desdém. - Anda primo, 'ocê já pode fazer sua exibição. Estou ansiosíssimo.

As pernas de Danilo bambeavam.

- M-m-mas focê pppode foar primeiro, Nestor. Precisso preparar-me.

- Nada disso, primo. Primeiro os roedores mais prestigiados da família.

- M-m-mmmas Nestor...

- VAI LOGO!

E, com um traiçoeiro empurrão nas costas, lá ia Danilo, em direção à boca esfumaçada, ao fundo do abismo, de encontro à ventania que despenteava seu pelo. Desesperado, começou a bater as penas no ar afoitamente, o que não apresentou resultado algum: continuava c
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                                                      o desenfreadamente, com o vento a zunir pelas suas orelhas, sua força fazendo as mandíbulas do esquilinho ondularem. Não via chance de sair daquela situação, pobre Danilo, apenas aguardava o baque surdo e forte contra o chão rochoso que ia surgindo por entre as nuvens. Mas, veja só que coincidência, vinha por ali ela,  p
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                                                                o vagarosamente, de braços abertos, espantada com a cena inusitada: um esquilo a bater as asas. Danilo avistou ela a se aproximar e seu nervosismo - como se fosse possível - multiplicou-se. Curiosa e assombrada, perguntou:

- Posso estar enganada, mas
não me parece que você seja
um esquilo-planador.

- E EU NÃO SOU MESMO.
ME AJUDA, POR FAFOR,
ESQUILA-PASSARINHA

                    - Esquila-passarinha? Mas que
                      bobagem é essa? - ela riu-se.
                      - Passarinhos têm asas. O que
                      tenho é essa membrana que me
                      permite...

- ME SEGURA,
EU VOU MORREEEER!

                                                                 - Calma, eu
                                                                 te pegooo...

                                                                                                   ... e segurou a mão de Danilo com força, trazendo-o para junto de seu corpo, abraçando-o sob as membranas que uniam seus braços ao corpo. Respirou aliviado, o pequeno esquilo aventureiro, sentindo o acalento dos pelos avermelhados dela.

- Que ideia besta foi essa de tentar voar, rapazinho? - ela perguntou, enquanto girava no ar, na direção da floresta.

- Achei que não fosse gostar de mim se eu não firasse um esquilo-passarinho.

- Gostar de você? Mas sequer sei seu nome.

- Sou o Esquilo Danilo - apresentou-se, embasbacado, de olhos aguados.

- Chamo-me Vanusa.

- Fanussa?

- Não bobinho, Vanusa - ela riu-se, deliciada, enquanto os dois sumiam, abraçadinhos, em meio à folhagem dos pinheiros.


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As ilustrações para este conto de O Ranzinza Urso-Cinza foram feitos com toda a delicadeza e talento de Olívia Portela. Fica aqui o agradecimento verdadeiro e a admiração para o ar sensível que você deu às ilustrações, querida Olívia. (:


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Outros contos da série:

O Ranzinza Urso-Cinza: Hibernação
O ranzinza Urso-Cinza: O Solstício de Verão

3 comentários:

Aline disse...

Ain, que lindo!!! Mais um conto com sua grande delicadeza e estilo. A-d-o-r-e-i e quero mais :D !!! Beijinhos, Aline

Lisys disse...

Ai, Rapha, essas histórias estão cada vez mais gostosas! Um personagem mais incrível que o outro.

Danilo roubou a cena, hein... acho que ele nasceu pra isso. hahaha.

Lisys disse...

Ah, e a ilustradora está de parabéns, ficaram muito bonitos os desenhos. Cinzento, Eduarda, Danilo, Nestor... Uma graça, gente. <3

Quando vai sair o livro pra eu comprar pra Isadora, hein?