terça-feira, 24 de janeiro de 2012

epidemias. (ou pequena discussão desimportante sobre a felicidade)

— Vim assim que pude. Você me pareceu tão preocupado ao telefone.
— Desculpe tirá-lo assim do serviço, amigo, mas eu não sabia a quem mais recorrer.
— O que aconteceu? Fale-me logo antes que eu tenha um treco.
— É... é que... eu acho que estou feliz.
O: Fffe-feliz?
— É. Eu acho que sim...
— Mas... tem certeza, amigo? Felicidade? Tem certeza que não é asma? Reumatismo? Cólica? Como isso foi acontecer, meu Deus? Desde quando você está sentindo isso?
— Não sei bem ao certo. Lembro-me dum dia em que ele desceu do ônibus... Foi nosso primeiro encontro à luz do dia; só tínhamos nos visto à noite antes disso. E, subitamente, parei, extasiado, e disse “Você tem olhos bonitos.” Desde então, acho que os olhos dele me fazem feliz.
— Que horror, meu amigo. Feliz por causa duns olhos.
— É, eu sei.
— Você já contou para sua família?
— Não! Claro que não. Como posso chegar para minha mãe e dizer: “Oi mãe. Estou feliz, você acredita nisso? Sim, isso. Felicidade mesmo.” Ela me coloca pra fora de casa só com a roupa do corpo.
— Você precisa se tratar. Procurar um médico, ver uns filmes do Lars Von Trier, ouvir Antony and the Johnsons...
— Não adianta. Nada disso. Ontem à noite, fui para a cama com uns poemas do Bandeira. Daqueles que parecem navalha cortando a alma, sabe? Nada. Nem uma lagrimazinha nos cantos dos olhos, um suspiro pesaroso, uma melancolia pungente...
— Talvez seja... não, melhor não falar isso.
— Fale. A coisa não pode ficar melhor... pior... hum... mais grave do que já está.
— E se for felicidade crônica?
D: Não diz isso, por favor. O que aconteceu com aquela ideia de que a felicidade é efêmera, nunca dura, dissipa-se com a mesma facilidade que nos assola? Eu não quero viver assim. Não vou suportar o bom humor matinal, o sorriso no ônibus, o mundo com cores vivas e alegres. Quero o cinza do meu quarto, quero os passos taciturnos, o andar cabisbaixo... Já nem sei mais quem sou! Horror, fim dos tempos! Faça alguma coisa, cara!
— Olha... Eu não sei se vai ajudar muito, mas, certa vez, li num livro que no século XX houve uma epidemia de amor pelo mundo.
— Amor? Você quer dizer, amor, amor mesmo?
— Sim. As pessoas se amavam, dá pra acreditar nisso? Eu não consigo nem conceber a ideia de viver num mundo com amor, é surrealismo demais para minha cabeça.
— E o que aconteceu?
— Oras, as pessoas se curaram disso, obviamente. Por isso, fique tranquilo, meu chapa. Daqui a pouco essa coisa de felicidade passa.
— Assim espero, amigo. Assim espero.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

a música sob o boné: meus cinco álbuns favoritos do ano.

             Embora música seja uma das minhas paixões mais veementes, preciso confessar que sou deveras displicente com a apreciação dos álbuns mais comentados do ano, com os lançamentos mais quentes da banda mais hype, com os clipes que todos estão comentando e até mesmo com os novos álbuns de bandas que já são membros honorários da minha lista de artistas favoritos — o Biophilia, por exemplo, ainda está na eterna lista de álbuns para serem ouvidos com um cuidado extra. Parte disso é dado pelo cotidiano corrido, que, muitas vezes, não permite a degustação musical da forma que você gostaria de fazer — sentando confortavelmente, com fones no ouvido, com as letras na mão, num ambiente propício à boa audição dum álbum; a outra parte é dada pela minha preguiça mesmo, não vou negar (sou um preguiçoso de carteira assinada e não tenho cara-de-pau para desmentir tal fato).
            Não obstante, durante todo o ano de 2011, muita música foi ouvida por esse ser que vos escreve diretamente deste irrelevante blog. Sempre tento conciliar minha música antiga, minhas bandas favoritas, com alguns lançamentos pertinentes — como veremos na lista abaixo —, com artistas indicados por amigos, que já conhecem meu gosto — esse ano, por exemplo, pirei nos álbuns do Jens Lekman, indicação antiga da Bia — e com bandas clássicas, obrigatórias, como o Bookends, do Simon and Garfunkel, que ouvi à exaustão durante todo o ano. E quando começam a pipocar (lindo verbo, alguém me contrata para ser crítico de micareta?), em meados de dezembro, todas as listas com os melhores discos do ano, vejo o tanto de coisa que foi ficando para trás e que terei que ouvir numa outra ocasião. Mas não importa: listados abaixo, os meus cinco álbuns favoritos do ano. Se quiserem, enviem por comentários a lista de vocês, com seus discos favoritos de 2011. Seria bacana.

5. “Let England Shake”, PJ Harvey.



            Obviamente, sempre tive conhecimento de que PJ Harvey é uma das cantoras mais importantes do cenário musical atual, mas nunca havia escutado um álbum inteiro dela. Peguei-me, certa manhã, extasiado pelo clipe de The words thar maketh murder, pela voz marcante acompanhada, em algumas partes, apenas por uma cítara. E o êxtase simplesmente se estendeu diante das doze faixas que compõem o belíssimo e intimista Let England Shake. Com letras de bela poesia, Harvey desbrava a Inglaterra pós-Primeira Guerra Mundial, descrevendo os horrores da guerra — “I've seen soldiers fall like lumps of meat”, canta ela em The words the maketh murder —, a paisagem cinzenta do seu país natal e as consequências da guerra. Mas o álbum vai muito além de referências históricas, com suas melodias trabalhadas, e a bela voz de Harvey guiando o trabalho de forma fenomenal.

- Faixas favoritas: The words that maketh murder, England e Hanging in the wire



4. “Canções de Apartamento”, Cícero



            Escrevi sobre o disco do carioca Cícero há alguns dias atrás aqui no blog e não posso deixar de citá-lo também nesta lista. Canções de apartamento foi mais que um álbum, foi um companheiro diante de coisas que eu estava passando, foi trilha sonora de noites reflexivas, seus versos foram poesias para verdades que eu precisava enfrentar. Representante da nova safra de ótimos artistas brasileiros, Cícero é dono de uma poesia bonita e cotidiana, que coloca tão vivamente nos seus versos. O clima intimista que sua voz sussurrante e o violão dedilhado sugerem é, muitas das vezes, o que mais procuro na música. É onde me sinto em casa num álbum — e, cabe aqui, novamente, mas um agradecimento a ele por ter aberto a porta do seu apartamento e ter nos dado esse álbum lindo de presente.

- Faixas favoritas: Tempo de Pipa, Ensaio sobre ela e Açúcar ou adoçante?

Post anteior sobre o álbum canções de apartamento aqui.

3. Metals, Feist



            Leslie Feist é, já há algum tempo, minha cantora contemporânea favorita. Já esperava um trabalho lindo dela, obviamente, e, embora o Reminder permaneça como meu favorito, Metals é um álbum de muita beleza, que a afasta do pop de 1,2,3,4, por exemplo, e mostra a vontade de se arriscar em novas sonoridades, novos desafios. A potente voz da canadense, suas composições intimistas, seus arranjos que, às vezes, beiram o obscuro se juntam num trabalho completo e surpreendentemente bonito.

- Faixas favoritas: Graveyard, How come you never go there e Antipioneer



2. Toque Dela, Marcelo Camelo



            Como todo bom fã de Los Hermanos, tenho dificuldade, às vezes, de ser imparcial sobre os novos trabalhos dos ex-integrantes da banda:  sou fã do debut do Little Joy e o Sou, primeiro solo do Camelo, foi declarado, hiperbolicamente, como álbum da minha vida há algum tempo atrás (leia post aqui). Toque Dela“Triste é viver só de solidão”, dando aos desavisados a falsa ideia de que o caminho a ser trilhado será novamente a tristeza que permeia o Sou do começo ao fim. Mas Toque Dela é uma ode ao amor, sutil, sussurrada, mas de beleza ímpar. até prega uma peça nos seus primeiros versos, quando, à voz sussurrante e instrumentação melancólica, Camelo declara que
            A mudança de sonoridade de um disco para o outro pode ser explicada pelos novos ares tomados por Camelo, que largou o Rio de Janeiro para morar em São Paulo, perto da namorada Mallu Magalhães. Ela, presença marcante no dueto de Janta do primeiro álbum, desta vez aparece apenas num singelo backing vocal na faixa Vermelho — uma das mais belas do álbum. Mas sua presença, entretanto, permeia toda a temática das canções e os motes dos versos cheios de paixão incondicional. É o amor dos dois que é recitado lindamente nos versos das 10 canções que compõem o álbum.
            Também conferi a apresentação ao vivo do cara no Circo Voador num dos primeiros shows da nova turnê e pude presenciar um Camelo feliz, sorridente e, principalmente, satisfeito com o resultado do seu trabalho. É do Camelo meu segundo álbum favorito do ano.

- Faixas favoritas: A noite, Tudo que você quiser, Três dias e Vermelho.



1. Bon Iver, Bon Iver



            Justin Vernon saiu da cabana. E, o pior de tudo, não avisou para a gente.
            Como todo bom fã que tem paixão pelo For Emma, Forever Ago, não foi fácil achar Vernon fora de sua hibernação, deixando de lado os violões dedilhados e as letras heartbreaking que consagraram seu primeiro trabalho. Mas, não é à toa que Perth, a faixa que abre o segundo e espetacular álbum do Bon Iver — destaque em praticamente todas as listas de álbuns do ano das principais revistas dedicadas a música — começa com um silêncio profundo de 6 segundos, como se afastasse os últimos resquícios do álbum anterior e convidasse para uma nova jornada, uma nova experiência.
            Os que aceitam o desafio embarcam numa viagem por mundos de sonhos criados por Vernon, por uma experiência auditiva que vai além dos limites dos sons criados pelos violões melancólicos, os sintetizadores que salpicam as faixas, a bateria, ora marcante como de uma banda marcial, ora coadjuvante dos arranjos cheio de nuances — é possível ouvir um sininho de bicicleta em Michicant, por exemplo — e, principalmente, da potente voz de Justin Vernon, do seu falsete tão característico. As composições também refletem essa aura onírica, já que Vernon tem um jeito peculiar de compor, preocupado muito mais com a sonoridade das palavras do que com o valor semântico delas — o que torna alguns versos sem sentido, outros um tanto herméticos para serem compreendidos. Os nomes das canções representam lugares, sejam eles de verdade, sejam lugares imaginários, o que reflete muito bem a forma como a mente funciona durante os sonhos.
            Aumentando a experiência, há pouco tempo foi lançando a versão deluxe do álbum, que contém um DVD com vídeos para cada uma das faixas, o que leva Bon Iver para um patamar áudio-visual. Uma verdadeira obra de arte, desde a belíssima capa, é de Justin Vernon e seu Bom Iver meu álbum favorito dentre os lançados neste ano.

- Faixas favoritas: Perth, Michicant, Wash. e Beth/Rest.


domingo, 18 de dezembro de 2011

aniversários.


Verão de 1957.


Acordara bem cedo, quando os primeiros raios de sol entravam pelas frestas da janela e coloriam o chão de tacos malcuidados, os passinhos desordenados cruzando a casa silenciosa a caminho da sala de estar. Lá estava, no canto da sala, envolvida pela penumbra, a pilha de presentes que, embora não passasse de três ou quatro pacotes ornamentados com belos laços vermelhos e papel colorido, a seus olhinhos ingênuos parecia uma montanha imponente de desejos embrulhados. Tomava cada um por vez nas mãos miúdas, sentia o peso, chacoalhava-os no ar, mesurando inconscientemente uma escala de importância para escolher qual abriria primeiro. Era por essa hora que a mãe despertava, alertada pelos barulhos ansiosos do menino e, ainda vestida na camisola de seda, abria as janelas e beijava seu cocuruto amavelmente, desejando-lhe “feliz aniversário”. Mais tarde, embora ainda não tivesse ciência à época, aquelas manhãs, envolto nos braços maternos e ao som doce de sua voz, tornar-se-iam suas melhores e mais agradáveis lembranças.
            Ao entardecer, sob o céu alaranjado de verão, o gramado do quintal, no alto de uma privilegiada colina, fora preenchido por balões multicoloridos, e o canto das andorinhas mixava-se com os berros estridentes das crianças, que corriam despreocupadamente, em brincadeiras desorganizadas, em deliciosas travessuras, com copos de plásticos cheios de refresco nas mãos e as bocas cheias de pipoca. Ele, vestido em sua melhor camisa de linho, engomada impecavelmente e abotoada até a gola, os sapatos engraxados com capricho, sorria satisfeito, com as mãos enterradas no bolso da calça cáqui, parecendo um pequeno homenzinho de seis anos. Interagia moderadamente com as crianças endiabradas, recusando com educação os convites para os tantos piques, tentando evitar sujar a roupa nova e bonita, numa atitude peculiar para sua pouca idade. Os convidados pareciam desapontados por um instante que durava até alguma outra criança matreira encostar-lhe a mão nas costas e passar o pique, saindo, em seguida correndo e rindo.
Afastou-se deles, a certo momento, suas vozes agudas e desafinadas tornando-se sussurros desimportantes, e apoiou-se na cerca de madeira tosca que circundava a casa. Foi quando seus olhos perderam-se na grandiosidade dos campos verdejantes tocados delicadamente pelo tênue sol do fim do dia, seus pequeninos pulmões encheram-se dum ar impregnado de epifania, e teve, pela primeira vez na vida, consciência de que era alguém, de que seu corpo frágil estava absorto de existência. Sentiu o peso do mundo comprimi-lo, aquela coisa enorme e intocável, da qual fazia parte de certa forma, agora tinha certeza. Viu, traçadas diante de seus olhos, as linhas irrevogáveis do destino, os traços desordenados do tempo, a amplitude de sua história, a ser escrita num caderno cujas páginas ainda encontravam-se em branco, a caneta suspensa, tomada em punho pela ventura de tudo que estaria por vir.
            Durou pouco; num segundo depois, avistou a silhueta de sua mãe contra a forte luz crepuscular, berrando seu nome, nas mãos um bolo cheio de glacê confeitado por ela mesma, as crianças ansiosas em volta dela. Olhou uma última vez para os campos, significativamente, e, a passos lentos, voltou para sua festa de aniversário.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

mãos.

            Vazio. O quartinho alugado no oitavo andar claustrofobicamente cheio de vazio, escorrendo pelas paredes descascadas, manchando o teto desbotado escurecido pela noite fria de julho, ocupando cada mísero centímetro do chão empoeirado e encardido, esparramando-se nas superfícies dos móveis antiquados e confusamente dispostos. Vazio que ela inala com dificuldade, mergulhada num mar plácido de cobertores felpudos e roídos, vazio que entope suas vias respiratórias, engarrafa o tráfego fluente do oxigênio que, por ora, não deseja, pudesse, assim, colocar fim à inquietude do corpo frágil e doente que repousa no colchão torto ou à insanidade berrante e irrequieta da sua mente confusa. Tudo o que lhe fora deixado, aquele vazio que ocupava cada quina do quarto e de sua vida, e que a mantinha acordada, de olhos arregalados, a noite toda. Vazio ensurdecedor das partituras silenciosas, ópera minuciosamente composta de sussurros do vento frio a balançar a janela de madeira. Vazio.
            Acende um abajur. Veste sobre o cadavérico e pálido corpo nu um vestido longo e vermelho. Procura os sapatos, na penumbra cortada apenas pela tênue luzinha mórbida, calça-os e senta-se defronte à penteadeira antiquíssima para pentear os cachos castanhos. Fantasmagórica é sua visão exposta friamente no reflexo do espelho sujo. Toma a maquilagem e se pinta sem vaidade, colore os olhos manchados de mágoa e insônia, realça a opacidade do azul de suas pupilas expressivas, mas não expurga os demônios da tristeza que assombram sua beleza. Colore os lábios de lívido tom escarlate, borra a boca carnuda que engole a vontade de viver — ou de não morrer, não se sabe bem — compilada em pequenas pílulas prescritas. Apaga-se a luz, some o espectro no breu.
            Ecoam os saltos na rua vazia, molhada da chuvinha fraca e insistente. Abraça-se, protege-se do vento constante que lhe beija as bochechas magras, as gotas da chuva borrando os olhos mal-pintados, umedecendo os cabelos, fluindo pela fronte. A pele fina arrepia, o frio desperta alguma vida nas veias arroxeadas, visíveis no lençol epidérmico que lhe serve de invólucro. Vê as luzes de um barzinho medíocre e imundo brilharem no escuro da madrugada fria. Anda o tão rápido quanto os saltos permitem, entre as cortinas de chuva e vento, e se abriga lá.
            Trata-se de uma espelunca mal-iluminada, fedorenta e imunda, com pouco mais de três almas perdidas, bêbadas e debruçadas no balcão longo. Ninguém nota sua entrada, exceto um rapaz, sentado a uma mesa no fundo escuro do botequim. Ele acompanha, com olhos curiosos, ela pedir vinho, que lhe é servido nunca caneca grosseira e encardida; não se importa, dá uma bela golada no vinho barato e senta-se a uma mesa ao seu lado, embora sequer note a presença dele. Apóia a caneca na mesa arranhada e gasta algum tempo tentando ajeitar os cachos molhados do cabelo, quando a voz dele ressoa inadvertidamente em seus ouvidos:
            — É de se estranhar uma dama bela como ti num cafofo fétido destes, mas confesso que se trata de uma agradável surpresa.
            Vira-se para ele, subitamente assustada, e se depara com dois olhos castanhos mirando-a com interesse sob a luz precária. É um rapaz jovem, de traços firmes e brutos, barba e cachos malcuidados, vestido num terno notavelmente barato, mas que lhe garantia certo charme. Encarou-o displicentemente, como quem visita uma galeria de arte vulgar, mas os olhos azulados rapidamente tornaram-se para a caneca de vinho. Ele sorriu galantemente, supondo tratar-se de lúdico flerte, necessidade feminina de valorizar-se através da indiferença forçada. Anunciou seu nome, graça comum herdada da devoção de sua mãe ao santo, e esticou a mão esquerda no esforço de conseguir um cumprimento. Mão de dedos longos e grossos, nos quais ela posou os olhos com discreta curiosidade; mão de linhas misteriosas, de roteiros inusitados, de marcas significativas, pequenos recortes atemporais na carne crua; mão de subterrâneas veias correndo sangue feito canais, o fluxo ininterrupto da vida posto diante de seus olhos; mão de unhas rusticamente cortadas, mão masculina, bruta e, paradoxalmente, afetuosa, convidativa; mão na qual ela entregou a sua, hipnotizada, como se entregasse toda a sua vida ao mesmo tempo, como quem pede, desprovido de orgulho, para ser cuidado. Entre os dedos fechados dele, sentindo o calor de sua palma áspera e seca, diz-lhe o nome, influência do gosto do pai pelos musicais dos anos 60.
            — Tem mãos bonitas — elogia, ainda aparentemente encantada com a mão que envolvia a sua.
            — De que me adiantam mãos bonitas se o toque nas cordas do banjo é rude, as pinceladas na tela são vulgares, o adestramento da caneta é ordinário?
            — Estou diante de um artista, portanto.
           — Estamos todos diante de artistas, todo o tempo — declara nebulosamente, a voz ressoante temperada com a boemia. — O que é a vida senão tela em branco, na qual espalhamos a aquarela dos nossos desejos? O que somos senão poetas à procura da rima para os sonetos de nossos anseios? Somos artistas, minha linda flor, somos sim.
            Bebem até os olhos avermelharem-se, os corpos anestesiarem-se no torpor etílico, as palavras patinando nas línguas, espiralando nas risadas descomedidas que ecoavam nas paredes escuras do bar vazio. Ele paga os tantos chopes e vinhos com algumas notas amassadas e umas pratinhas pescadas do fundo do bolso e os dois ganham a calçada. Chove ainda. Ela estremece involuntariamente ao ventinho frequente que anunciava o iminente amanhecer, mas as mãos dele tocam-na nos ombros, feito um casaco, aquecendo-a do frio. Ajeita-se entre os braços dele, “minha casa é logo ali” num balbucio débil e caminham na chuvinha persistente a passos bambos entre as poças d’água que reluziam as lâmpadas dos postes. Escalam os oito lances de degraus, a chave gira na fechadura, as línguas giram na boca, a saliva mistura-se à chuva nos lábios flamejantes. Caem roupas encharcadas no chão, caem corpos na cama bagunçada sob a penumbra do último suspiro da madrugada, e ele irrompe na fragilidade macilenta dela, sua brutalidade animalesca atenuada por um zelo recém-adquirido. Sente-o, a massa corpórea firme que agora a cobre, procura as mãos dele na cama, “não, não são estas mãos”, um pânico lhe acomete enquanto ele se move dentro dela. Mãos erradas, depois daquelas serão sempre mãos erradas e ela sente os olhos explodirem em lágrima e desespero quando ele explode de prazer e volúpia.
            Seca os olhos com fúria, vira-se para o lado, tapa o corpo nu com um cobertor. Ele não compreende. Tateia alguma peça de roupa, questiona em meio à confusão:
            — Queres que eu vá embora?
           — Não me importa — a rudeza a escorrer pelos lábios. — Mas se decidires ficar, faça-me um favor: mantenha tuas mãos longe de mim.
            Ele termina de procurar suas roupas no escuro, abotoa a camisa branca e veste o paletó por cima. Para à porta, de onde a luz do corredor revela o corpo inerte dela na cama, feito um moribundo em seu leito de morte. Olha-a pela última vez antes de sair, os olhos castanhos enaltecidos de compaixão  e, de mãos nos bolsos da calça, desce as muitas escadas a caminho do amanhecer chuvoso.
            Vazio. O quartinho alugado no oitavo andar claustrofobicamente cheio de vazio.

 "Homage to Edward Hopper", Antonio Tamburro

sábado, 19 de novembro de 2011

músicas e divagações: "canções de apartamento", cícero.





faixa 1: tempo de pipa

"Vamos nos espalhar sem linhas
ver o mundo girar de cima
no tempo da preguiça."

 Já faz algum tempo desde o último “Músicas e Divagações” aqui no blog, que, pra quem não lembra, é apenas uma boa desculpa para ouvir música bacana e falar — reclamar? — da vida. E, sinceramente, tudo que estou precisando hoje é isso.

Mas para falar do Cícero, primeiramente eu tenho que falar (em linhas bem gerais, senão precisaria de todo o post) do meu bom amigo André Felipe — o Dé para os íntimos. Na verdade, a nossa amizade já nasceu nos frutíferos caminhos da música, quando o last.fm apontou-nos como vizinhos, devido ao nosso compatível gosto musical. Infelizmente, uma vizinhança virtual, e aquele café para falar da vida num fim de tarde, por ora, não pôde acontecer. Entretanto, isso nunca foi empecilho para a boa amizade que compartilhamos, que acabou criando laços que vão bem além do gosto musical, embora seja sempre muito bem entrelaçada com as notas ressoantes de nossas bandas favoritas. E foi numa dessas conversas em que ele tanto me ajuda a colocar a cabeça no lugar que ele disse: “Você já ouviu o Cícero? Você vai se identificar, ele fala de muitas coisas que você está sentindo agora.”

faixa 2: vagalumes cegos.

"Fica bem aí
Que essa luz comprida
Ficou tão bonita
Em você daqui"

Bom, isso foi há dois meses atrás. Eu juro que tento manter meus downloads em dia, ouvir as boas dicas que meus amigos me dão, os tantos discos que saem, mas não dou conta nessa vida corrida de auxiliar-de-escritório-estudante-de-letras-estagiário-blogueiro-nas-horas-vagas. Mas, quando finalmente baixei e as cordas do violão deram forma aos primeiros segundos de “Tempo de Pipa”, eu senti uma emoção diferente. Sério. E eu só pensava “Esse Dé me conhece mesmo.”

A verdade é que esse álbum do Cícero, gravado de forma independente e disponibilizado gratuitamente para download (vide link lá no fim do post) tem um ambiente, uma aura, uma essência — não sei exatamente qual dos três ou quem sabe os três juntos? — que, indubitavelmente, serve-me de espelho no momento pelo qual estou passando.

faixa 3: cecília e os balões.

"Pra começar a descobrir
o que é chegar e o que é partir
o coração só precisa de ar"

Vai além das letras, que são de poesia simples — e nada simplória —, de palavras sutilmente selecionadas, de universalização de sentimentos. Cícero narra com beleza e sem obviedade sensações simples, delicadas, aquelas pelas quais todos nós já passamos, mas que temos tanta dificuldade de expressar. Vai além da musicalidade também, embora as notas suaves, a voz doce de Cícero, as nuances, a atmosfera íntima e acolhedora do álbum sejam parecidas com as de outros músicos que ouço. Eu não sei exatamente o que foi que me emocionou de tal forma desde a primeira audição de “Canções de Apartamento”. Creio que ele tenha se encaixado perfeitamente como a trilha sonora de emoções que vinham se aflorando dentro de mim nesses últimos dias e, de certa forma que não consigo identificar com precisão, as canções ajudaram-me a atravessar esse período emocionalmente crítico.
faixa 4: joão e o pé-de-feijão

"Ainda não fazem pessoas de algodão
Ainda não fazem pessoas que enxuguem
suas próprias
mágoas"

Eu diria que este álbum tem muito do que vejo em minha essência, por assim dizer. Diria mais: se tivesse sido agraciado com algum talento musical ou com a capacidade de dominar as palavras, de adestrá-las — porque as palavras ainda me são feito feras ariscas e, possivelmente, sempre serão —, talvez o resultado de minhas andanças pelos caminhos artísticos beiraria algo muito próximo dessa sutileza do Cícero de falar dos sentimentos. Mas, como me falta o talento — tanto o musical quanto o linguístico —, resta um sentimentalismo um tanto exacerbado quando procuro expressar o que sinto em textos. Bom, é sorte que, ao menos, bom gosto e sensibilidade foram me dado para poder apreciar um belo disco como este.

         
 
faixa 5: ensaio sobre ela.


"Não se esqueça
por enquanto
de esquecer alguma coisa
pela casa
e vir buscar do nada"

“Canções de Apartamento” tem cara de dia chuvoso, daqueles em que você fica preguiçosamente esparramado na cama desarrumada, apreciando a chuva molhar o vidro da janela. É assim, sem pressa, sem clímax, sem urgência. É aquela tristeza com a qual você já se acostumou, que ficou ali, em algum cantinho do seu coração e às vezes cisma de doer novamente. Mesmo quando fala de rompimentos, assunto doloroso que pode virar circo de sentimentalismo, Cícero é calmo, dosado, certeiro. Nesta canção, por exemplo, é linda a forma como a gente consegue atribuir forma aos versos, se identificar com aquela sensação de perda que, inevitavelmente, volta a bater em horas menos esperadas, quando notamos, por exemplo, algo que a pessoa esqueceu em nossa casa — ou na nossa vida.

faixa 6: açúcar ou adoçante?

"Fica um pouco mais
Que tal mais um café
Ainda lembra disso?
Que bom."
E entre os versos sussurrados de Cícero, me pego refletindo sobre como meus sentimentos estão às avessas, desestruturados, completamente bagunçados dentro de mim. A ausência, no meu caso, não é serena, como canta o músico. Tenho explosões diárias de emoções, nem sei mais descrever as coisas que sinto. Se me perguntam se estou bem, não sei responder, essa é a verdade. Mas, no fundo, eu sinto que isso é bem normal, depois que você vive um período muito feliz e, logo em seguida, precisa enfrentar novamente os aspectos indesejáveis da sua vida. É como li esses dias em algum lugar: “tenho medo de ser feliz, porque felicidade nunca dura.”

faixa 7: eu não tenho um barco, disse a árvore.

"a gente sempre deixa de cuidar
do que já tem na mão"

Mas a minha identificação com este disco vai no extremo oposto: não é nas incertezas emocionais, nas oscilações pelas quais tenho passado que me vejo refletido, mas nessa melancolia tênue que passeia por todo o álbum. É no cinza que descolore as letras que me encontro.

faixa 8: laiá laiá


"Vamos dançar
qualquer coisa
é melhor
que tristeza
por favor
Se esqueça"

O Cícero fez um clipe lindão para divulgar esse álbum, para faixa “Tempo de Pipa” (minha favorita e, possivelmente, uma das minhas músicas brasileiras favoritas do ano). Gravado em plano-sequência, o bondinho de Santa Teresa e um melancólico Rio de Janeiro ao amanhecer servem de pano de fundo para o lindo clipe. Confere aqui:



9. pelo interfone.

"se tu soubesses o quanto machuca
não amaria mais ninguém."

E já que estamos falando de clipes, vale a pena também deixar a dica do site do meu amigo Dé, o Música Pavê, do qual sou fã de carteirinha (e juro que isso não é puxação de saco, rs). E um agradecimento especial a ele por tudo que já fez por mim nesse tempo que a gente se conhece. E, olha, não foi pouca barra que esse cara já me ajudou a passar, viu.

10. ponto cego.

"é sexta-feira, amor!"

E, finalizando, você pode baixar o álbum do Cícero na íntegra no link abaixo. Agradecer ao músico, porque disponibilizar um álbum lindo desses de graça é realmente um presente. E, coincidentemente, a sexta-feira acaba ao clima melancólico desses versos. “Canções de Apartamento” é uma boa companhia para dias assim, com certeza.

download: cicero.net.br
facebook: facebook.com/cancoes.de.apartamento