terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O Ranzinza Urso-Cinza: O Natal da Família Urso [parte 1]


Quando finalmente descobriu o que era o Natal, Horácio, o urso-de-óculos, já tinha quase dois anos de idade e deixava, aos poucos, de ser uma bolinha de pelos acinzentados sedosos para tomar formas do urso robusto que seria um dia - se, ao acaso, a natureza o moldasse às formas de seu papai Cinzento. Uma brancura espessa tomava conta de toda a floresta e o pequeno urso, com os óculos de lentes enormes cambaleando na ponta do nariz, deixava as marcas dos pezinhos na fina camada de neve que se acumulava sobre a vegetação rasteira, cobrindo os galhos das árvores e granulando o grande lago de minúsculos pontinhos alvos. O sol, entretanto, ardia em incandescência no céu muito azul e perolava o dia com uma luz leitosa e branda, feito uma cortina de seda flamulando à brisa.

Horácio ajeitou os óculos e parou muito ereto diante de um enorme tronco de carvalho. Bateu três vezes na madeira com as patinhas felpudas e, após o som ecoar vibrante no tronco oco, um pequeno roedor de pelugem ruiva surgiu, ofegante, num dos galhos mais altos. Era o esquilo Danilo.

- Ah, olá, querido Horácio! - cumprimentou com sua vozinha agudíssima - Fenha, a porta está aberta - convidou o esquilo, sem atinar para a impossibilidade do atarracado urso alcançar, a próprio mérito, o cume íngreme do carvalho.

- Veja, Danilo, a neve já se acumula em espessura suficiente para que empreendamos uma guerra de bolinhas gélidas e mortais! - excitou-se o ursinho, juntando com as patas um pouco da neve que estava a seu alcance.




Danilo franziu o cenho, abobado. "Não entendo nada que esse menino diz" pensou,  diante da eloquência precoce de Horácio. " Fai fer ele tem algum probleminha..."

- Agora não posso, amigo - respondeu, enfim, para qualquer fosse a proposta do urso. - Estou arrumando as malas pra fiajar.

- E qual seria seu itinerário, caro amigo?

- QUÊ? - gritou, lá de cima, o esquilo.

- Para onde você vai? - Horácio rosnou mais alto, como se seu tom de voz fosse o real imbróglio para a falta de comunicação.

- Ah, eu e a Fanussa famos foar para o sul, para passar o natal com a família dela. Não é marafilhosso?

- Natal, o que é isso? - indagou o confuso Horácio. - E como pretendem realizar a incrível peripécia de voar até o sul se, não obstante, não possuem asas?

- Adeus, Horácio. Mando-te um postal do sul - e o esquilo sumiu no interior do tronco de carvalho.

Não saber o que era o natal perturbou o esperto urso durante toda a manhã. Atravessando a fina camada de gelo e o tênue frio que lhe arrepiava os pelos escuros e espessos, dirigiu-se ao bosque das nogueiras, onde seus pais colhiam as nozes que os alimentariam durante o período de hibernação.

- Papai Cinzento, tenho uma indagação deveras pertinente para lhe fazer.

Eduarda riu, continuando a colher as nozes maduras, enquanto Cinzento girou os olhos para o límpido céu azul, enfastiado - era um tanto difícil ter um filhote dotado de demasiada perspicácia. Largou as nozes e, embora na maioria das vezes não soubesse responder às questões existenciais de Horácio, sentou-se para ouvi-lo.

- O que é natal, Papai Cinzento? - perguntou, como se saboreasse as letras daquela palavra que ainda não lhe representava nada.

Cinzento rangeu os dentes, para deleite ainda maior de Eduarda.

- Eu vou MATAR o Danilo!

Os olhinhos caramelados de Horácio apertaram-se por detrás dos óculos.

- Desculpe-me, papai, mas natal é alguma obscenidade?

- Claro que não, filhote - Eduarda aproximou-se, às gargalhadas. - Não comemoramos o natal porque o preguiçoso do seu "papai Cizento" - (e houve aqui um certo quê de sarcasmo) - não é capaz de abrir mão de um diazinho sequer de hibernação.

- Talvez a obesidade acentuada do papai explique essa fadiga constante - o urso-de-óculos ponderou com inocência. - Será que não poderíamos, papai, ao menos uma vez, comemorar o natal?

- NÃO! - Cizento urrou entredentes, como se somente a ideia do natal lhe causasse dor física.

Foi quando ouviu-se um ensurdecedor estrondo vindo de longe, como se o enfático "não" de Cinzento tivesse força suficiente para causar uma avalanche. O barulho de gelo chocando-se com a margem do Grande Lago, entretanto, não configurava mistério algum para os ursos adultos, que trocaram olhares de confidência. Cinzento, desconcertado e movendo-se depressa na direção das extensões do lago, seguido de perto por Eduarda e Horácio, exclamou, incrédulo:

- Gêlobus!

Os olhos arregalados de Horácio surpreenderam-se ao ver uma gigantesca pedra de gelo atracada à beira do grande lago, em cuja superfície dezenas de ursos branquíssimos, quase camuflados em contraste com o iceberg, despediam-se de quatro deles, que desembarcavam de malas às mãos.

- Vovô Apolo! - Eduarda gritou com euforia, correndo para saudar os recém-chegados.

- Quem são esses ursos-albinos papai? - o assombro de Horácio crescia mais e mais.

- Não são ursos-albinos, sim ursos-polares - Cinzento disse com um resmungo, ainda que orgulhoso de finalmente saber responder a um dos questionamentos do filho. Eles são nossos parentes e vêm de gêlobus, lá do polo-norte, para nos visitar.

Cinzento, após tais exposições, suspirou pesaroso; sabia que não havia escapatória: naquele ano, haveria natal na caverna da família urso.





[continua amanhã...]

Um comentário:

Daniel Thurler disse...

saudades desse rabugento ♥