sexta-feira, 13 de novembro de 2009

sobre sonhos - e o autoconhecimento que eles provêm.

E quando seu coração acostumou-se com a tênue ausência e quando a dor voraz que sentira transformou-se num incômodo insignificante em suas noites insones, aquela longínqua tarde cinzenta de domingo foi envernizada com uma aura onírica que lhe trazia um pequeno sorriso de satisfação ao rosto. Um sonho doce, despretensioso, com um quê de sagrado e um gosto de eternidade. Tinha dias que sequer conseguia distinguir se ele realmente existira; o conceito de realidade se extinguia diante da perfeição indubitável daquele momento e lhe parecia um tanto mais plausível aceitar a condição de que ele fora um capricho de sua mente criativa.

Havia, entretanto, algumas fotografias que impunham friamente um inexorável tom de existência àquela tarde. Mesmo assim, de todas as fotos, ele só conseguia associar verossimilhança à qual estava sozinho, mãos afundadas no bolso e expressão de contentamento. Sozinho, somente ele, o mar calmo e o céu cinza. Não seria talvez uma mentira cômoda esse papo de que ninguém nasce para ficar sozinho? Uma convenção social para aqueles que não podiam encarar a realidade de que viveriam e morreriam sozinhos? Ele sempre fora, por excelência, um solitário. Entendia-se na individualidade de sua alma e descobrira que estar com outra pessoa não era nada senão um sonho. “Talvez a vida baseie-se nisso: na dor causada por esses filhos-da-puta e no nosso esforço sobre-humano de reconstruirmo-nos e colocarmo-nos de pé novamente”, ele pensava agora.

E quando tornou-se capaz de separar sobriamente o sofrimento que lhe fora causado deste sonho paradoxalmente efêmero e eterno, descobriu tanto de si mesmo que, por um breve momento, assombrou-se. Era agora nítido que não devia nunca diminuir-se pela escolha de outrem de não permanecer ao seu lado, afinal, talvez a magnitude de seu ser não podia ser compreendido pelo outro. E pensava nisso sem soberba ou pretensões que não lhe cabiam, mas com a verdadeira modéstia de quem compreende-se pela primeira vez e percebe que é maior do que sempre pensou ser possível ser. Não sentia-se mais incompleto diante da rejeição, pois tinha em si mesmo a completude de entender-se por fim. E gostava da forma como suas qualidades e defeitos, seus conhecimentos e suas ignorâncias fundiam-se no intuito de formar uma personalidade única, porém, ordinária; complexa e, ao mesmo tempo, simplista.

Mais do que tudo, aprendera que as pessoas que escolhem não fazer parte de sua vida não levavam nada dele, não sedimentavam o todo que ele compunha. Não era possível dividir sua essência, porque ele era muito mais que um conjunto de características idiossincráticas justapostas de qualquer forma. E que satisfação intumesceu-lhe a alma ao sentir-se pela primeira vez único, completo e digno da vida.

Ele podia estar longe de ser a beleza de um poema de Drummond, mas tampouco era a mediocridade de um romance de Paulo Coelho. Ele descobriu um equilíbrio entre a complexidade do seu ser e a simplicidade de encarar a vida através do seu ritmo natural. E, por enquanto, isso lhe bastava plenamente.


4 comentários:

Leco disse...

cadê tu, meu caro?

apareça!

saudade.
;)

Lisys disse...

Uau!

Raρнaєl Cardosø disse...

bom ter você por aqui lisinha =)
te amo bagaraio.

fabricio disse...

Leo o Senhor esta prontinho pra ser global...RRSSrsrs...Marco..