segunda-feira, 19 de outubro de 2009

sobre as cercas — e o que quer que elas dividem.

Há 10 minutos atrás, acabei de ler o best-seller de John Boyne “O Menino do Pijama Listrado”, muito comentado e na maioria das listinhas de pessoas que leem o que tá na moda e o que está sendo indicado pela revista Veja. O livro, como vários outros já fizeram à exaustão, trata dos terrores da II Guerra Mundial e sequer há inovação na escolha de abordar o assunto pela perspectiva de uma criança — já que, há alguns anos atrás, a autora de outro best-seller, "A Menina que Roubava Livros", usou com tanta beleza tal recurso.

Portanto, qual o motivo do burburinho em torno deste romance?

Eu não tenho resposta para tal pergunta, mas falo por mim ao dizer que Boyne me encantou com a sensibilidade colocada homeopaticamente em cada palavra das 186 páginas de sua história. Sem errar na medida, sem abusar de um melodrama que muitas vezes inunda histórias com essa temática, o terror do holocausto se torna um eufemismo que somente a pureza dos olhos de uma criança poderia captar. E esse é o grande trunfo do autor: colocar em sua narrativa brilhantemente a visão do mundo de Bruno, o menininho de 9 anos que não entende porque teve de deixar Berlin, porque há uma cerca separando sua nova casa de um campo onde todas as pessoas usam pijamas listrados ou porque os soldados “entram e saem da sua casa como se mandassem no lugar”, nas próprias palavras do menino.

Assim, para conseguirmos usufruir e gostar do livro, é necessário ver o mundo pela ótica de Bruno: o Fürer torna-se o Fúria, o campo de concentração de Auschwitz se torna Haja Vista e o problema de bebida da mãe pode transforma-se num simples vício em xerez medicional. Esse mundo de eufemismo criado pelo autor é tão atraente que nos sentimos forçados a acatar a ideia e esquecer-nos das atrocidades causadas pelo regime nazista e fingir — pelo menos por um instante — que tudo não passa de um imbróglio para o qual Bruno não encontra explicação.



E tudo leva à amizade dos dois meninos, um alemão e um judeu, onde o autor prefere apontar as semelhanças às diferenças, o que os aproxima do que os separa. Mais uma abordagem sensível, sutil e simples de John Boyne.

No fim do livro, tomado pelo sarcasmo característico da irmã mais velha de Bruno, Gretel — o Caso Perdido — Boyne diz:

“Claro que tudo isso aconteceu há muito tempo
e nada parecido poderia acontecer de novo.
Não na nossa época.”

Infelizmente, sabemos plenamente que ainda há muitas cercas separando os seres humanos e que estamos longe de ser agrupados pelas nossas semelhanças, prevalecendo a separação e o preconceito pelas nossas diferenças.

Quisera cada um ter um pouquinho de Bruno e sua inocência dentro de si...

Um comentário:

Leonardo Fergosi disse...

eu não li o livro [aliás, ando com um hiato intelectual muito grande na minha vida, não tenho lido, mas já estou trabalhando para resolver esse problema, vou começar um livro do Bakthin - tido como o suposto pai da análise do discurso, conhece?]. o único acesso que tive a essa história foi com comentários feitos por uma amiga que assitiu o filme na faculdade. a história me pareceu interessante. agora, de fato, o teu texto aqui está ótimo. gostei mesmo. envolvente. vou colocar o título na lista de próximos a serem lidos.

beijos.