(Caso não esteja chovendo quando estiver lendo este texto, clicar AQUI pode ser realmente útil.Assim como clicar no nome das músicas durante o texto pode tornar a experiência de lê-lo um tanto mais interessante.As imagens que ilustram este texto foram gentilmente roubadas do flickr. Os créditos para todas elas estão devidamente no final do post.)
A janela salpicada de gotículas minúsculas embaçava a realidade exterior, ou assim lhe parecia, de pálpebras pesadas e pupilas desfocadas. Do terceiro andar, avistava abaixo um mar de sombrinhas multicoloridas, vermelhas-incandescente, azuis-turquesa, verdes-fluorescente, amarelas-pôr-do-sol, assim como guarda-chuvas sobriamente negros, que disputavam o espaço das calçadas, um borrão de cores sob a chuva forte, um encantado fluxo cromático camuflando as pessoas que se protegiam da água.
Monday After Rain
Ele tinha uma caneca à mão que exalava o cheiro doce de café por toda a extensão do quarto de hotel, mergulhado numa tênue penumbra acinzentada. Apoiando a testa na janela fria, triste, tristíssimo, bebericou o último gole do negro néctar. Vestiu um casaco sobre o suéter de lã, preparando-se para enfrentar o frio úmido de agosto. A chuva, lá fora, mantinha sua percussão ritmada nos telhados, sua música improvisada no vidro da janela, correndo pelas calhas e meio-fio, lavando a tarde plúmbea que morria lentamente. Ele, de mochila nas costas, passagem no bolso e guarda-chuva à mão, posicionou os fones do iPod no ouvido e, diante de um último olhar melancólico para o quarto, trancou a porta e ganhou o corredor.
02. "Furrows", I am Oak Juntou-se à correnteza de guarda-chuvas e sombrinhas, um aglomerado heterogêneo de pessoas apressadas, irritadas, seus ternos impecáveis molhados pela chuva, os vestidos deixando à mostra canelas encharcadas. Os rostos, assombreados pela proteção à chuva, traziam nos traços uma melancolia pungente, olhos nebulosos que miravam as poças, acumuladas nas imperfeições das calçadas; lábios crispados em absoluto silêncio, como uma plateia extasiada que assiste ao concerto da chuva, batucando, delicada, nos guarda-chuvas. Ele tinha uma mão no bolso, passos incertos obstruídos pela multidão molhada, e teve dificuldade pra alcançar o ponto de ônibus.
Sob a proteção da marquise, cercado por propagandas luminosas e pessoas aborrecidas, fechou o guarda-chuva e aguardou. Os carros, na avenida, passavam, velozes, através das cortinas de chuva, deixando um rastro de frio que o fez puxar o zíper do casaco e esfregar as mãos com força, as bochechas, revestidas de barba espessa, avermelhando-se com a exposição ao vento invernal. O frio, todavia, não era só externo. Fazia frio também dentro dele, uma nevasca bruta que lhe cobria o coração naquela triste tarde chuvosa de agosto.
Uma vaga reminiscência surgiu em sua mente, de repente, despertada pelas gotinhas que acumulavam-se à borda da marquise e pingavam sincronizadamente. Era domingo à tarde, e estavam sentados num café, a algumas esquinas do ponto em que se encontrava agora, bem próximos, aquecendo-se mutuamente do frio. Ela adicionava umas gotinhas de adoçante à xícara de café e, na enevoada lembrança, no quebra-cabeça de imagens pouco nítidas, disse-lhe alguma irrelevância que configurou-se em sorriso. Um sorriso tímido, de lábios finos, de bochecha com covinhas, de beleza distinta, serena, de felicidade secreta, um sorriso que parecia preencher-lhe de contentamento. Foi quando descobriu que a amava, e se acometeu de um temor genuíno, que reluziu em seus olhos castanhos.
"Que tens, amado?", ela questionou, bebericando o café.
O microônibus estava vazio. No breve torpor do interior aquecido, pôde tirar o casaco, que colocou no assento ao lado, junto com a mochila xadrez. Fazia-se noite, lentamente, enquanto o ônibus cruzava a avenida movimentada; as luzes amareladas dos postes refletiam-se nas gotinhas de chuva acumuladas no vidro, criando uma constelação, um microcosmos que ele espreitava distraído. Pensava em sua casa, a algumas centenas de quilômetros de distância, no cheiro específico que ela tinha, na saudade de sua cama, seu travesseiro já adaptado à forma de sua cabeça. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, sentia vontade tremenda de ficar ali, tornar aquela cidade seu lar, pedir a ela um lugarzinho qualquer em seu apartamento no qual pudesse arrumar suas coisas e se aconchegar. Aquele sorriso... Podia acordar todo dia ao lado daquele sorriso, ele bem sabia.
Rain Bus Manchester Piccadilly
Mas ambos eram estrelas, ele sabia, em cosmos distintos - embora a velocidade do ônibus fizesse as gotinhas correrem pelo vidro e se juntarem, como uma explosão cósmica milimétrica, um encontro inesperado dos astros que nunca deveriam ter suas rotas adjuntas. Eram estrelas. A se afastar, na velocidade da luz, para nunca mais avistarem o brilho uma da outra.
A rodoviária interestadual fervia em movimentação, uma ebulição de pessoas, malas e histórias, encontros e despedidas, sorrisos e lágrimas. Ele dirigiu-se à plataforma F2, na qual o ônibus que o levaria de volta à realidade, ao dia-a-dia, já encontrava-se parado e de portas abertas. No burburinho das pessoas excitadas, mesclado com o barulho da chuva batendo contra a lataria do ônibus, ele acendeu um cigarro, de coração apertado, como se estivesse prestes a deixar uma parte de si para trás ao entrar naquele ônibus.
Um senhor aproximou-se, pediu-lhe que acendesse seu cigarro.
- Tem os olhos tristes, meu rapaz. - Estou deixando algo importante para trás - ele respondeu com displicência, soprando a fumaça pro ar. O senhor meneou a cabeça, pesaroso, e foi fumar seu cigarro na outra ponta da plataforma. Ele apagou a ponta do cigarro com a sola do tênis e subiu no ônibus, procurando o assento identificado na passagem. Poltrona 16. Ele riu da ironia.
Há três dias atrás, sentado à décima-sexta poltrona daquele mesmo ônibus, ele chegava à cidade, meio que por aventura, para conhecer uma menina com quem havia trocado emails por vários meses seguidos. Não sabia o que esperar, afundado no assento com as mãos suadas de ansiedade, até o ônibus estacionar na plataforma.
Estava parada ali, a pele alva roseada pelo frio, os enormes olhos verdes apreensivos a perscrutar cada pessoas que descia do ônibus. Protegia-se da chuva com um guarda-chuva branco estampado com milhares de coraçõezinhos avermelhados, e ele simplesmente sabia que era ela. Foi em sua direção, mãos no bolso, tímido, e ela abriu o sorriso de covinhas, dizendo:
Corria. As pernas a passos largos, como um atleta, a respiração descontrolada, apenas corria, sem se preocupar com os olhares curiosos que o observavam. Tinha dificuldade em abrir caminho através das pessoas, lentas, cheias de bolsas, atravancando o caminho, as calçadas, as esquinas. A chuva escorria por seu cabelo, molhava a roupa, não se importava, apenas corria, porque a cada passo sentia-a mais próxima e sabia que ela sorriria daquela forma e, de repente, ele se sentiria bem novamente. Achava que lágrimas escorriam de seus olhos, mas não tinha certeza, apenas corria, corria, até alcançar a porta e bater, com pressa, com ansiedade.
Ela abriu a porta, vestida com roupas simples, os cabelos presos num rabo-de-cavalo. Espantou-se em encontrá-lo ali, ensopado da chuva, embora tivesse um guarda-chuva à mão. Ele agradeceu por ter chuva em seu rosto: ela não podia, dessa forma, ver as lágrimas em seus olhos.
- Tentei ir embora sem me despedir. Achei que seria mais fácil. Mas não consegui.
Covinha. Ela acariciou o rosto dele e deu-lhe espaço para que entrasse. Os dois, então, sumiram no calor do quarto.
______________________________________ Créditos de Imagens: (juro que só roubei fotos de usuários que permitiam o download de suas fotos, rs) "Monday After Rain", por sue tortoise "Rain Buys Manchester Piccadilly", por Waka Jawaka "Street Light 3", por Lisa Hindelang
Essa é a segunda edição do "Musica e Divagações", uma coluna do meu humilde bloguinho que eu gostei muito de fazer pela espontaneidade com que as palavras saem com um trilha-sonora de fundo. Mas fiquei realmente em dúvida sobre qual álbum escolher desta vez, até perceber que eu PRECISAVA escrever sobre o primeiro álbum solo do Marcelo Camelo. O porquê dessa escolha?Bem, vamos apertar o Play e aí a gente conversa...
Faixa 1: Téo e a Gaivota "todo amor encontra sempre a solidão."
Okay, eu sei que falar deste cd já virou assunto obsoleto, velho e ultrapassado, afinal, esse álbum é de meados do ano passado. Mas houve uma injustiça tamanha do recebimento de algumas pessoas para com essa obra. Os fãs alvoroçados do Los Hermanos não conseguiram entender muito bem a proposta do Camelo para sua carreira a solo e o que eu li de besteira por aí sobre esse álbum não está no gibi.
Confesso que meu primeiro momento diante do "Sou" também não foi lá uma experiência única e inesquecível. Acabei fazendo um desses downloads capengas que vazam antes mesmo do lançamento e o set list veio fora de ordem, trazendo "Copacapana" como faixa 1. Pensei no mesmo momento: "Puta que pariu, Camelo! O Amarante já tá fazendo isso no Orquestra!" ¬¬'Mas não demorou para o encantamento começar a tomar conta de mim, pouco a pouco, devagar. As audições vieram lentamente, às vezes batia aquela preguicinha - porque o "Sou" não é nem de longe um álbum de fácil audição. E foi bem de repente que me peguei totalmente fascinado por cada um dos 55 minutos que compõem esse álbum.
Faixa 2: Tudo Passa "os ais e os hãos de ser e todos os casais também."
Mas o que causou toda essa proximidade a este álbum particularmente?Okay, eu posso estar sendo um tantinho hiperbólico nessa minha próxima fala, mas arriscarei mesmo assim, com a certeza de que posso me arrepender de ter dito isso algum dia:
"Sou" é o disco da minha vida.
Uow... vejam que eu realmente acredito nisso.. Letras grandes, em negritos.. Quem sabe eu não faça uma tatuagem, rs. Just kidding. A verdade é que são poucas as obras de artes em que eu consigo me encaixar plenamente, me ver retratado, me sentir inserido nela. Acho que o nome disso é catarse, não é Simone? (minha maravilhosa professora de Teoria da Literatura que me transmitiu em 1 ano mais conhecimento do que jamais consegui juntar nos outros 22 anos da minha vida)
Faixa 3: Passeando "estamos sós."
Nossa, essa é nostálgica *_* Ouça esse dedilhado... sinta a simplicidade... Caceta! rs.
Mas então... voltando ao assunto...Catarse é um sentimento que lhe invade ao peito quando você está fruindo de uma obra de arte. Você pode sofrer Catarse de dois modos: sensibilizando-se dos sentimentos e dores retratados na arte pelo fato de nunca ter acontecido contigo - aquele sentimentozinho de alívio ao fim de um filme onde o casal apaixonado termina separado, por exemplo, e você pode dar graças a Zeus porque o seu amado está ainda do seu lado.
Faixa 4: Doce Solidão "foge que eu te encontro que eu já tenho asas."
(...) E há, em contraponto, a Catarse onde o que acontece na obra de arte parece, aos seus olhos, uma autobiografia. Aquele filme ou música que parece ter sido escrito para você, sabe?É esse tipo de catarse que eu sofro ao ouvir o "Sou".Nunca antes tinha visto meus sentimentos tão bem resumidos em apenas um discozinho brilhante. (E esse assovio de Doce Solidão? Nunca mais saiu da minha cabeça desde a primeira vez que ouvi essa faixa.) E sim, "Sou" é um disco que fala em sua maior parte de solidão. Acho que a palavra está presente em quase todas as faixas, quando não explicitamente, escondida em algum sentido mais profundo.
Faixa 5: Janta (com Mallu Magalhães) "caminho em frente pra sentir saudade" Até mesmo esta faixa, que tem por essência um relacionamento, fala da solidão que existe na vida a dois. Eu amo essa faixa de paixão, mesmo com os miados da Mallu, rs. E é uma faixa que sempre serve de trilha sonora quando estou envolvido com alguém, porque em todo "relacionamento" - que saco ter que usar estas aspas, mas ainda não posso usar a palavra relaciomento no seu sentido conotativo - que me envolvo, a solidão, a tristeza e a saudade ficam espreitando à porta, me deixando inseguro, sem perspectiva... assim, tais versos simbolizam o meu medo do filme sempre se repetir:"eu quis te conhecer, mas chega de insistircaberá ao nosso amor o que há de vir."E, infelizmente, toda vez que usei esses versos para lançar à sorte meu envolvimento com alguém, o resultado foi solidão.
Faixa 6: Mais Tarde "acho que não vai dar, tô cansado demais."
Ah, solidão.Ultimamente eu tenho sido muito questionado sobre minha solidão. Sobre meus hábitos taciturnos, minhas fotos tristes, meu gosto por música e filmes depressivos... E minha resposta é sempre a mesma: eu não posso fugir do que sou.Quando tiro uma foto que fica triste, nostálgica, depressiva, não é porque quero que ela saia assim. Não falo: "Peraí, Diego, espera eu ficar bem triste.. quando vir meus olhos marejar, você tira a foto, okay?" Não é assim que as coisas acontecem.
O problema é que, na verdade, quem me conhece, sabe que eu sou a pessoa que mais ri nesse mundo. Adoro dar risada, rio até da coisa mais sem graça do mundo e tenho sempre pronta uma piadinha sem vergonha para fazer. E não faço isso para parecer feliz perante a sociedade, nada disso. Tampouco uso isso para dissimular com meus amigos o que realmente sinto. Eu não tenho motivos para fazer algo do gênero.Tassiane esses dias me disse que eu preciso parar de colocar fotos depressivas no orkut, que tenho que parar de mostrar para as pessoas que sou assim.E minha resposta para ela foi simples e inexorável:
Faixa 7: Menina Bordada "moça por favor, cuida bem de mim."
(...) EU NÃO POSSO FUGIR DO QUE SOU!
E se minhas fotos saem da forma que saem, talvez estejam refletindo o que está na minha alma. E que mal pode haver em algo assim? Em você poder expressar o que você realmente é, sem máscaras, sem maquiagem... você, cru, de verdade. Eu só vejo beleza em uma coisa dessas.
Portanto, concluindo esse papo doido, passou da hora de refletirmos sobre esse paradigma de que a tristeza é má. Okay? Podemos ser mais sensatos que isso. Pra mim, toda boa obra de arte tem uma boa dose de tristeza e minha essência também é feita disso. É essa tristeza íntima e benéfica que me faz ter a visão de mundo peculiar que tenho.Obviamente que às vezes essa essência me faz mal e me deixa triste do jeito ruim da palavra. Mas tudo na vida tem esse lado pesado e obscuro.. e chega de filosofia de boteco que eu já estou falando bobagem, rs.
Faixa 8: Liberdade (com Dominguinhos) "é deus, parece que vai ser nós dois até o final."
Bom, como falei quando fiz o "Música e Divagações do Kings", eu não tenho nenhum conhecimento teórico sobre música. O meu gosto vai muito por alguma coisa íntima, uma melodia que me pega desprevinido, um som que me faz sonhar e viajar, um verso que significa muito mais que palavras em um ordem sintática... E eu gosto muito dessa relação que tenho com a música, uma relação que parece uma amizade. Às vezes você tem amigos que não são lá grandes gênios contemporâneos, mas você ama aquela pessoa do jeitinho que ela é... E a música pra mim pode ser a mais simples possível, contanto que desperte em mim algum sentimento bom.
Faixa 9: Saudade (instrumental, por Clara Sverner)
(...)Digo isso tudo porque este álbum do Camelo tem seus momentos orquestrais e tem momentos da pura simplicidade de um violão dedilhado. Se "Téo e Gaivota" tem sua beleza complexa ressaltada pela particapação do Hurtmold - banda de música instrumental que acompanhou o Camelo na gravação do álbum e na turnê -, "Saudade" à voz e violão não perde um mísero ponto por ser mais simples e delicada. Essa é apenas uma agulhadinha em gente que acha que música é SÓ aquela que faz quebrar os dedos pela complexidade das notas.Há música na simplicidade. E bela música, por sinal.
Faixa 10: Santa Chuva "meu coração já se cansou de falsidade."
Essa aí ele escreveu, deu de presente para a Maria Rita e depois tomou de volta, rs. Eu gosto muito mais da versão dele. E é engraçado que na época do Los Hermanos eu sempre fui mais fã das canções do Amarante. As do ruivo sempre eram as consideradas favoritas por mim, até que, ao ouvir o "Sou", fui levado a uma reflexão profunda sobre o lirismo de Camelo. Não que desgostei das do Amarante, mas passei a dar mais importância a canções que antes me passam meio despercebidas.
Faixa 11: Copacabana "todo destino padece aqui."
Aaaah, olha a dita cuja aí! rs.Okay, estranhei ela de começo, mas agora eu adoro. Mesmo odiando carnaval e as coisas que remetem a ele... Mas essa música tem um ar nostálgico da época que o carnaval parecia ser uma coisa bacana... Gostaria de ter presenciado essa época do carnaval.
Faixa 12: Vida Doce "assim eu caminho no tempo que eu bem entender."
Puta que Paréu! Eu sou completamente apaixonado por esta música.Adoro o ritmo de carimbó, adoro a letra, adoro o jeito arrasto do Marcelo cantar...Essa é, a propósito, o toque do meu celular, rs..Sendo que ando precisando trocar isso, porque me traz más recordações >.<Bem, vou começar as considerações finais, porque com certeza elas renderão as próximas 2 faixas.Meu amor por esse cd cresce a cada dia mais, a cada escutada, a cada análise das nuances das letras, a cada descoberta de um novo som, uma sutileza no dedilhado ou um minúcia no tom de voz do Camelo.
Faixa 13: Saudade "amor, eu vivo tão sozinho de saudade."
(...)E esse amor é sim um amor triste, porque "Sou" é uma obra triste.Mas ela revela em suas entrelinhas uma esperança de uma Vida mais Doce, de um encontro com a Liberdade, de acontecimentos felizes guadados para Mais Tarde.E precisamos aprender a ver sutilezas escondidas na tristeza e na solidão. Porque o crescimento e amadurecimento sentimental estão escondidos nos momentos em que sofremos. Não há crescimento na alegria, não há reflexão num momento feliz. Pelo menos assim eu acho.
Faixa 14: Passeando (instrumental, por Clara Sverner)
Obrigado, Camelo, por ter colocado toda a sua alma em cada nota desse álbum e ter compartilhado com a gente a transparência de sua sensibilidade.E fica assim: até segunda ordem, "Sou" é um retrato dos recônditos mais profundos da minha alma.
(...) But I can't stop listening to the sound of two soft voices blended in perfection from the reels of this record that I've found. (Homesick, Kings of Convenience)
Eu não me lembro mais quando foi a primeira vez que eu ouvi Kings of Convenience ou onde foi que descobri o som desses dois noruegueses. Mas de alguma forma, eu tenho a certeza de que foi paixão à primeira ouvida. Violões dedilhados, vozes suaves, melodias hipnotizantes e letras sinceras... Uma mistura que me pegou de jeito e se tornou um verdadeiro vício.
E depois de 5 anos sem material inédito, eis que tenho às mãos (metaforicamente, porque na verdade, o que tenho é um download sem-vergonha, rs) o tão aguardado Declaration of Dependence. Esse post está sendo escrito durante a primeira audição desse novo álbum, em tempo real, sem correções ou preocupações orotgráficas. Simplesmente Música e Divagações.
A primeira lembrança que tenho do som dos Kings é um moleque falando sobre eles na comunidade do Jack Johnson, num bate-papo que havia lá, onde havia uma rixa entre paulistas e cariocas por causa dos show do Jack (onde tinha sido o melhor show, onde ele tinha gostado mais de tocar... coisa de fã besta). E esse cara passou o endereço para uma Jukebox no site dos Kings onde era possível ouvir todas as faixas do Riot on an Empty Street de graça... Nessa época minha net era discadona, não sei se foi lá que eu ouvi ou se baixei o cd.. mas o importante é que devo muito a esse moleque que eu realmente não sei quem é... rs... O cd começa bem. Eirik fazendo a primeira voz... Eu acho que eu gosto mais da voz do Erlend, mesmo que me doa fazer uma afirmação dessas... E tipo, eu não entendo tecnicamente de música. Música pra mim é muito mais uma coisa de feeling do que ficar esperando acrobacias espetaculares com os dedos ou vocais guiados pelos anjos ou por outros seres celestes - sendo que a voz desses dois tem um toque divino, viu? Eita, a música tá com um cortezinho no final ¬¬' Damn it!
Essa aí já é uma velha conhecida: foi a primeira a vazar e o meu Last.Fm já contabilizou 83 execuções desta faixa (em 3 meses). Eu e meus amigos íamos sair e ao dar um pulinho na comunidade dos Kings no Orkut, eis que me deparo com o download dessa faixa ripado de uma rádio norueguesa: ah não! me atrasei mas tive que baixar! E ela é bem viciante, acho quer Mrs Cold é pro Declaration o que Misread foi pro Riot. Adoro =)
Nossa, essa é tipicamente uma bossa nova... podia estar num álbum do João Gilberto ou do Jobim... Pra quem não sabe, João Gilberto é uma das inspirações dos caras e veja só que ironia: lá na Noruega tem gente dando valor pro que temos de bom aqui enquanto nós mesmo não sabemos apreciar isso... Eu queria entender as letras... mas meu inglês de ouvido é bem ruinzinho... Eu preciso melhorar isso, afinal, se vou ser professor de inglês, não vou poder chegar com essa desculpa para os alunos né? "Ah, o professor aqui não entende muito bem o inglês falado não.. mas pra quê? Escreve num papelzinho o que vc quer falar, querida." uhahuauha
"Oh, it's a little bit of me inside you gathering what you've lost Oh, there's a little bit of you in everyone And I'm watching you nowI see you building the castle with one hand While you tearing it down with the other"
Nossa, essa é demais =O E veja só, consegui extrair o refrão \o/ auhauhahua Que paz que esses dois conseguem trazer com sua música. Fantástico!
"Ooooh, ooohhhh, ooooohhhh I could never belong to you"
Essa aí é daquelas que a gente canta junto ou fica assoviando o dia todo no trabalho, com a música grudada na cabeça... Música chiclete da melhor qualidade. E Bot Behind (junto com Mrs Cold) é o primeiro single desse álbum e já tem clipe:
Nossa, já pensou uma road tripping com Eirik e Erlend? E esse céu? E esse sol? brisante o clipe =O Deu uma puta vontade de cair na estrada ao som de Kings... deve ser bom demais... Direto pro litoral *.*
Engraçado que Boat Behind me faz lembrar a viagem pra Rio das Ostras que eu e Diego fizemos há uns meses atrás... Mas aquela viagem não tava nesta vibe, não. Foi uma viagem bem introspectiva e não tao amarelada e esperançosa como aquele videoclipe. Mas foi uma boa viagem...
Aaaaah, essa tá cortada no meio =/ Que droga, véio... maravilhosa faixa... isso que dá fazer download antes do cd vazar, sempre vem com umas falhas deste naipe... Mas a metade que eu tenho aqui pode fazer desta uma das melhores faixas do álbum.. linda!
Essa tem um nome engraçado.. Mas é bem introspectiva.. bem sutil... a voz do Eirik em primeiro plano e o violão acompanhando sutilmente... Bem bonito, viu? E termina com um violãozinho sendo dedilhado láááá no fundo, quase que imperceptível.. que maravilha, véio.. Veja que minhas descrições são maravilhosas, né? Sou quase um crítico de música KKKKK
Violão mais forte novamente... Ai cara, eu falei que prefiro a voz do Erlend mas eu nem sei mais... O Eirik tava fantástico ali na faixa de cima.. a voz do Erlend é mais alegre... E fantástico como colocaram as suas vozes em primeiro plano nesse álbum, bem bossa-nova mesmo... Sabe uma coisa irritante? Tô aqui curtindo esse momento maravilhoso ouvindo o melhor cd do ano e tenho que estudar para a prova de Linguística logo em seguida. Um verdadeiro paradoxo: do céu ao inferno. (Nada contra a Linguística, tudo contra a professora) Falando na faculdade, o que Lisys teria a falar desse álbum, hein? ela que gosta de arranjos complexos e...
... e manobras no piano dignas de uma tendinite... Aposto que ela falaria mal... Mas ninguém fala mal dos noruegueses perto de mim, ran! U.U E eu acho tão difícil alguém (excetuando o João Gordo) não gostar do som dos Kings... porque é uma coisa muito agradável, não tem como incomodar alguém a ponto de criar uma aversão ou algo do gênero... ué, já acabou? nem deu tempo de eu falar Õ.o kkkkkkkkkkkkkkkkk
Essa já começa com o violino à la Boat Behind... Bom demais =D Nossa, falei da Lisys, ela me manda sms =O que vínculo espiritual #zoa uhahuahuahua Mas, voltando ao assunto, eu sou muito fã de uma assim, mais simples (não simplória), sem floreios, com beleza genuína debruçada na simplicidade... Os Kings são minha paixão, mas também entram nesse time o Eliott Smith e seus álbuns Lo-fi, José González e sua música cinza, Damien Rice e seu violão triste, Feist e a magia da sua voz... Tem muita gente boa fazendo música assim... Aliás, podia ter rolado mais um dueto com a Feist nesse álbum, hein? Build-up é obra de arte, lindo demais *.*
Essa aí é mais uma das que vazaram e eu já ouvi à exaustão. Na verdade, das 4 que haviam vazado, é a minha favorita.. e é na voz do Eirik, brilhantemente interpretada por ele.. adoro essa paradinha... "This time is me.. is me..." Nossa, esse post deve tá uma bagunça KKKKKK eu tô escrevendo como se fosse uma conversa de MSN... se você conseguiu chegar até aqui, manda um salve.. uhahuauhauha
E a capa? Nem falei da capa... Acho a mais bonita das 3, mesmo que a sutileza da capa do Riot me encante... Mas essa capiturou de verdade o clima da música do Kings.. resumiu muito bem toda essa vibe calma de fim de tarde na praia... E essa capa vazou logo após quando eu e Diego voltamos de Rio das Ostras e, de certa forma, ela tem um pouco da forma das fotos que tiramos por lá... Okay que a paisagem deles é infinatamente mais bonita, mas digamos que foi uma intertextualidade meio louca, rs.
Aaaaah, tá acabando >.< É triste pensar que pode demorar mais 5 anos pra sair outro álbum desses.. o Erlend, pelo que ouço dizer, já que não sou amigo íntimo do cara, é um puta perfeccionista... Imagina só, o Eirik deve sofrer nas mãos dele KKKKK Tomara que esse cd saia aqui no Brasil.. o Riot eu consegui comprar, foi até barato.. mas o Quiet só tem importado, pra lá de 100 reais... foda isso, eu até queria ter os cds originais das minhas bandas favoritas, mas a maioria não é lançado aqui no Brasil... Cara, o cd tá perfeito =O Que loucura.. cd bom do começo ao fim é coisa rara hoje em dia.. Sendo que eu já esperava isso, né.
Que bom que essa musica foi incluída no álbum, porque ela é linda... Por que será que ela ficou fora do Riot? Muito estranho... Bem, o cd tá aprovadíssimo, realmente maravilhoso. Valeu os 5 anos de espera. Clicando no nome das canções, você pode baixar todas elas.. os créditos de download são pra Raquel Amorim, lá da comunidade do Kings no Orkut. Agora deixa eu dar uma editada nesse post e tirar esse monte de reticências. Se Marília (minha professora de Leitura e Produção de Texto) pega um texto meu desse jeito, ela me castra, rs.
Até a próxima gente.
"Freedom never greater than its owner No view is wider than the eyes."
Hoje eu e diego gastamos a tediosa tarde de sábado jogados no sofá e trocando de canal compulsivamente. Para quem não conhece meu pequeno e humilde município uma coisa anda se propagando por aqui indevidamente (além de mato, frio e gente besta): canais de televisão, com programação focando 24 por dia o nosso cotidiano simplório. Já temos 3 canais legitimamente friburguenses até o dado momento, com programação de gosto duvidoso e qualidade criticável.
Contudo, foi em um desses 3 canais que nos espantamos ao ouvir uma melodia bem arranjada com influência de indie-pop e ver que as cenas do clipe traziam paisagens de Nova Friburgo, de lugares tão conhecidos por nós como Lumiar, bairro Ypu, e até a infernal rodoviária pública - que poderia dar uma postagem para narrar as coisas inacreditáveis que lá acontecem.
Descobrimos pela entrevista dada ao tal canal que o nome da banda é Bild e que os moleques realmente são daqui. Eu, particularmente, gostei do clima idílico da música, tão parecido com o de bandas que ouço no meu dia a dia, e da forma que as luzes e os ângulos do clipe focalizaram bem a essência do nosso singelo esconderijo no alto da montanha.
Eu não conheço os caras, mas estou colocando aqui o clipe que tanto me chamou a atenção. Pra vocês, meus amigos de longe, espero que vocês se sintam mais próximos e consigam captar o clima da cidade de que tanto falo:
Lá no MySpace dos caras tem outras músicas e mais informações para quem se interessar:
ato os cadarços imundos do meu adidas, pego algum dinheiro apenas por garantia e, ajeitando os fones nos ouvidos, jogo meu iPod no bolso da bermuda. é incrível como a companhia do pequeno objeto portátil tocador de músicas às vezes é tão lívida e suficiente quanto a de uma pessoa e como as doces melodias que ele propaga são capazes de preencher os espaços vazios tal como uma boa conversa. é uma pena que ele seja exímio apenas como interlocutor, e sequer se importe com o turbilhão de emoções que se afloram em meu peito.
a passos firmes e vívidos, começo a traçar o itinerário já devidamente conhecido. é sabido que às vezes torna-se mais interessante arriscar-se em novos trajetos e que a aventura de andar por onde nunca ninguém andou é um estimulante à intensidade da vida, mas não é tão simples largar a comodidade de seguir os próprios passos que você deixou na areia no dia anterior. a beleza do dia é tão humanamente imperfeita que traz lágrimas aos olhos: a luz crepuscular, branda, aquece meu corpo, enquanto o sol, generoso, não se importa de dividir a imensidão celeste com as desimportantes nuvens alvas. há poesia ali. sutilmente, a imperfeição do dia declama um idílico soneto sobre a beleza das coisas mais simples e singelas da vida. nem todos conseguem ouvi-lo: talvez faz-se necessário se perder na tênue linha entre ser uma pessoa complexamente simples ou imperfeitamente complicada para tal. eu o ouço perfeitamente.
subitamente, a calçada simetricamente entre o rio e a avenida sussurra em meus ouvidos um convite à corrida. eu gosto de correr. o vento no rosto enquanto seus pés chocam-se deliberadamente contra o chão irregular é uma das formas mais palpáveis de liberdade que já experimentei. mas quando deixamos de ser garotos travessos, aprendemos que não podemos correr sempre que temos vontade. os pés devem estar sempre pregados ao chão numa caminhada ritmada e uniforme, sem riscos, sem aventuras. eu contraio o impulso tentador de correr. na verdade, eu me rendo facilmente à segurança de andar devagar, porque temo as possíveis quedas e tropeços. e sei que essa covardia é um paradoxo pra alguém que acredita tão cegamente na magia da vida, que arma conspirações a cada olhar lançado por um estranho na rua ou que arquiteta pequenos atos teatrais a cada esquina deserta, mas, no momento, não é viável pra mim acelerar uma caminhada que sempre deu-se a seu próprio ritmo. talvez esse seja o grande erro da minha personalidade: transformar qualquer irrelevância numa peça da brodway – ou, qualquer caminhada às 5 da tarde num texto com mais de 30 linhas.
minhas divagações são abruptamente interrompidas quando um olhar a sudoeste capta nuvens enegrecidas lançando águas turvas sobre a parte sul da cidade. breco de chofre e ponho-me a devanear sobre meu próximo passo: um banho de chuva tem o inexplicável poder de revigorar nossa energia e de lavar profundamente nossa alma, limpando-a das impurezas acumuladas nos cantos onde não permitimos que nossa esperança alcance. um banho de chuva pode subitamente ser um jorro de vida sobre você. a chuva tem esse poder. não obstante, eu sou um covarde. falta-me coragem para chegar em casa encharcado por uma discrepância climática.
lanço um último olhar desejoso às nuvens carregadas e volto para a segurança do brilho opaco de fim de tarde.
definitivamente, eu não sou um apreciador do clima natalino. também pudera, já que não sou cristão e nem mesmo adepto do capitalismo desenfreado (algumas pessoas podem retorquir que uma pessoa não-capitalista nunca possuíria um iPod, mas eu tenho argumentos plausíveis de que um iPod é uma necessidade, o que torna a sua compra consumo, e não consumismo U.U). contudo, como eu não queria deixar passar o natal em branco aqui no blog, resolvi falar de uma das melhores coisas que o dia 25 de dezembro trouxe pra mim (depois da comida maravilhosa da minha mãe): os álbuns de natal do sufjan stevens *_*
pra quem nunca ouviu falar, sufjan stevens é o rapaz da foto acima, músico americano jovem e talentosíssimo mais conhecido pelo seu audacioso projeto de fazer um álbum conceitual para cada estado dos Estados Unidos. Nessa looooonga estrada que ele tem a percorrer, ele já lançou dois álbuns, Michigan e o fantástico e aclamado Illinois, meu favorito por sinal. e quando não está dedicando-se aos 48 que faltam, ele lança belíssimos cds de natal, indo do tradicional "jingle bells" à músicas espirituosas como "get behind me, santa!".
os 5 cds de natal disponíveis pra download aqui referem-se ao período entre 2001 e 2005. depois disso, sufjan passou a presentear amigos com seus cds de natal, e eles não são mais lançados oficialmente. entretanto, claro que uma boa varrida na internet não torna nada impossível: assim que acabar esse post, eu vou baixar o songs for christmas volume 8 \o/
no mais, bom natal pra todo mundo. se assim como eu, você não se importa com o sentido religioso do natal, aproveite a data pra estar mais perto das pessoas que ama ou pra gastar algum tempo com sua família. acho que isso é o que realmente importa no natal.
o useless top 5 (top cinco inúteis) é um quadro fixo do meu blog que enumera periodicamente os 5 melhores numa categoria irrelevante e sem importância alguma. neste, que é o último do ano, vamos saber quais foram os 5 cds que não pararam de tocar repetidamente no meu computador, meu cd player, meu iPod e até na casa dos meus amigos. são os 5 álbuns que mais ouvi esse ano, de acordo com a confiável fonte que é meu last.fm. todos os cds estão com link para download, bastando clicar nas fotos das capas para baixar. quem sabe eles não viram seus álbuns mais escutados também? ;)
5° lugar: aha shake heartbreak, por kings of leon (2004) total de execução de suas faixas: 227 vezes
king of the rodeo, a 2° faixa desse álbum já faz parte das minhas músicas favoritas há bastante tempo, desde que a mtv passava o clipe com certa frequência em suas manhãs de música alternativa. mas durante esse ano eu finalmente deixei minha preguiça de lado e baixei a discografia do kings of leon, descobrindo que eles são com certeza uma das melhores bandas de rock na ativa. do vocal caipira e viril do caleb à bateria alucinada do nathan, aha shake heartbreak foi o álbum que acompanhou meus momentos mais descontraídos e felizes durante esse ano. não foram poucas as vezes que me peguei cantando a plenos pulmões"AHAAA SHAAAAAKE TAPER JEAN GIRL WITH A MOTEL FACE" quando a casa estava vazia, ou fazendo dancinhas com uma guitarra imaginária às mãos durante os solos de "soft". aha shake heartbreak foi o raio de sol nos meus dias nublados durante esse ano. merecidíssimo 5º lugar =]
faixas: (as minhas faixas favoritas em cada cd estão marcadas com asteriscos) 1- slow night, so long [*] 2- king of the rodeo [*] 3- taper jean girl [*] 4- pistol of fire 5 - milk [*] 6 - the bucket [*] 7- soft [*] 8- razz 9- day old blues [*] 10- four kicks 11- velvet snow 12- rememo 13- where nobody knows [*]
créditos de download: comunidade discografias, no orkut.
4º lugar - o, por damien rice (2003) total de execução de suas faixas: 241
o damien rice, certas vezes, é incompreendido pelo grande público. algumas pessoas vêem nele um esquisitão com músicas melosas e gritos histéricos, enquanto outros vêem potencial radiofónico o suficiente pra fazer uma super-duper versão em português e tocar suas canções como tema das novelas globais. mas damien rice, pros fãs de verdade, vai muito além disso. só quem tem um de seus álbuns como álbum de cabeceira consegue entender que sua angústia é verdadeira e que sua música é um jeito de expressar sua tristeza e melancolia. é tão assustadoramente real sua frustração com os sentimentos que é quase palpável. damien rice foi minha trilha sonora para os momentos mais depressivos desse ano. "delicate" foi um ode a um amor que ainda não vivi, "older chests" foi o regresso de uma nostalgia vívida e "eskimo" um hino à solidão que me acompanhou bem de perto o tempo todo. mais que isso, "o" foi o álbum que foi comigo para a cama, me ninou e trouxe sonhos de dias melhores. fantástico, lindo, verdadeiro. 4° lugar.
créditos de download: comunidade discografias, no orkut
3° lugar: riot on an empty street, por kings of convenience (2004) total de execução de suas faixas: 247
erlend e eirik, os carismáticos músicos que compõem o kings of convenience, fazem magia com seus violões dedilhados, suas vozes aveludadas e seus versos brilhantemente organizados em algumas das canções mais lindas que já ouvi. a paixão pelo duo norueguês é tanta que já os conheço há 2 anos e, mesmo assim riot on an empty street continua sendo um dos cds que mais ouço. e isso não tem menção alguma de mudar enquanto "cayman islands" conseguir me transportar para lugares paradisíacos que não conheço, enquanto "misread" for o tema de um dia ensolarado num parque e "i'd rather dance with you" uma sarcástica canção pop primorosa. esse álbum é, simplesmente, uma obra-prima. simplesmente. 3º lugar.
faixas: 1- homesick [*] 2- misread [*] 3- cayman islands [*] 4- stay out of trouble [*] 5- know-how 6- sorry or please [*] 7- love is no big truth 8- i'd rather dance with you [*] 9- live long 10- suprise ice 11- gold in the air of summer [*] 12- the build-up [*]
2º lugar: 9, por damien rice (2006) total de execução de suas faixas: 258
e eis o irlandês depressivo novamente, o que não me causa nenhuma supresa, já que damien rice é um dos meus músicos favoritos. mas isso prova a teoria de que a música que ouves é um reflexo do que andas sentindo: num ano em que andei parcialmente recluso, absorto nas minhas verdades e nos meus sentimentos, damien rice foi a trilha-sonora exata, um tiro certeiro para ilustrar que as coisas não andavam bem comigo. da belíssima balada "dogs" (uma das minhas músicas favoritas do cara) à impactante "me, my yoke and i", 9 foi um bom motivo pra chorar ("9 crimes"), pra berrar ("elephant" e "rootless tree") e pra dizer um foda-se ao mundo e não ter que explicar nada a ninguém ("coconut skins"). obrigado pela companhia, damien. foi de suma importância ;)
faixas: 1- 9 crimes [*] 2- the animals were gone [*] 3- elephant [*] 4- rootless tree [*] 5- dogs [*] 6- coconut skins [*] 7- me, my yoke and i [*] 8- grey room 9- accidental babies 10 sleep, don't weep
1º lugar: sou, por marcelo camelo (2008) total de execuções de suas faixas: 334
o controverso álbum solo do camelo foi motivo de discussões calorosas entre os fãs xiitas dos hermanos, que esqueceram de um detalhezinho quase insignificante: se preocuparam tanto em criticar o álbum que não conseguiram sentir a verdade que camelo colocou em cada segundo desse álbum. "sou" não é um álbum para ser ouvido; você precisa estar com seu espírito em harmonia para entender sua grandiosidade. eu, que já me identificava perfeitamente com as composições dos hermanos, achei no álbum do camelo meu oásis. é até engraçado como "mais tarde" fala da nossa insignificância diante do mundo do mesmo jeito que me sinto diante da complexidade da vida; como "doce solidão" fala da cômoda ausência de alguém para partilhar sua vida, aquele tipo de solidão que você acaba se acostumando por conveniência; e como "vida doce" é carregada de uma esperança lívida com seu ritmo caliente. é uma pena que as pessoas não tenham conseguido sentir a discreta miscelânea de emoções que é o "sou". pra mim, esse é um retrato sonoro perfeito do que o ano de 2008 representou pra mim. convenientemente onde devia estar: 1º lugar.
faixas: 1- téo e a gaivota [*] 2- tudo passa [*] 3- passeando 4- doce solidão [*] 5- janta [*] 6- mais tarde [*] 7- menina bordada [*] 8- liberdade [*] 9- saudade 10- santa chuva [*] 11- copacabana [*] 12- vida doce [*] 13- saudade [*] 14- passeando
créditos de download: comunidade marcelo camelo, no orkut
ontem eu fiquei até depois de uma da madrugada assistindo pela primeira vez meu dvd do los hermanos ao vivo na fundição progresso e me deu uma puta vontade de escrever um post sobre o que essa banda significa pra mim, principalmente por ter estado naquele exato show e ter sentido na pele o que é uma apresentação ao vivo dos caras.
minha prima isis sempre insistia deliberadamente pra que eu ouvisse los hermanos e, por algum motivo imbecil, eu resistia às suas sugestões. até que um dia eu aluguei o ventura por um fim de semana numa locadora de cd's aqui da cidade. sim, eu pirei no som. fiz minha copiazinha pirata e debulhei o cd, ouvindo à exaustão. dias depois eu comprei o 4 (havia gostado tanto do ventura que fui logo comprando o 4 original, sem medo algum) e, mesmo sendo um álbum mais complicado, soou perfeito aos meus ouvidos desde à primeira audição. acabei ganhando o ao vivo no cine-íris de presente de aniversário dos meus melhores amigos e completei a coleção comprando o bloco e o los hermanosalgum tempo depois.
a verdade é que não ligo de gastar minha grana com os álbuns/dvd's da banda porque o los hermanos é uma das bandas que eu amo sinceramente e me identifico pra caramba. a beleza das melodias e a poesia das letras, a falta de preocupação com a mídia e a crítica e a coragem de fazer o que eles querem fazer tornam o los hermanos uma banda como há muito tempo o brasil não via. e ontem, com esse dvd, eu pude sentir por uma vez mais a magia que envolve a música dos hermanos.
o dvd é um registro simples: a iluminação é precária, o áudio não é lá essas coisas, não há cenário, a edição é quase inexistente... como espetáculo visual, o cine-íris é um tanto mais convidativo. mas esse dvd captou brilhantemente um dos fatos que mais diferem o los hermanos de outras bandas brasileiras: seus fãs. um hermaníaco não vai ao show só assistir. ele está lá pra participar, pra ser parte integrante do espetáculo. canta com amor todas as canções, chora, berra, dança, pula e pede pierrot incansavelmente. e ser parte dessa platéia pelo menos uma vez foi uma sensação maravilhosa que infelizmente não sei se poderei sentir novamente algum dia (sem querer ser pessimista >.<). a vibração que essa gente reunida consegue passar é coisa que não vai ser possível sentir através da tela da tv: só quem esteve lá no dia 9 de junho de 2007 pode entender. não é pra qualquer banda ter uma legião de fãs tão apaixonada e fanática quanto os barbudos conseguiram. fica aqui, singelamente, de uma hermaníaco devoto, a homenagem e a saudade da melhor banda que o brasil viu em muito tempo.