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sábado, 31 de julho de 2010

à procura da catarse perfeita.

Não importa quantas pessoas você conheça, qual porcentagem você considere realmente como amigos e quantos são meros colegas e/ou conhecidos; não importa o quanto você se iluda com o frio contato virtual, quantas pessoas você siga no twitter ou adicione no orkut e no facebook: chegará um dia que você estará sozinho no negrume do seu quarto, sentindo a solidão expremer seus pulmões com volúpia, até o oxigênio tornar-se uma raridade mais valiosa que diamantes. Não Camelo, você está equivocado: não há nada de doce de solidão.

Nick Drake foi meu primeiro companheiro nessa noite solitária. No quarto escuro, vazio, sua voz reverberava pelos cantos, como se ele estivesse realmente presente, cantando aos meus ouvidos, dedilhando um violão velho e desafinado. Dizem que "Pink Moon" é uma obra complexa e, no alto de minha ignorância musical, nunca compreendi muito bem isso. Sabia que tinha sido gravado à meia-noite de uma noite de lua cheia, num estúdio vazio onde Drake, sozinho, com seu violão, deixou marcado para sempre seu último e derradeiro álbum. Mas creio que ontem, pela primeira vez, eu senti "Pink Moon". E foi uma experiência angustiante, como se cada acorde penetrasse na minha pele, comprimindo meu coração, bombeando-o desritmadamente. Se cheguei a compreender a grandeza dessa obra eu ainda não sei, mas sentimentos novos foram causados pela magnitude da genialidade de Drake.

Logo após, um velho conhecido tomou seu posto no banquinho, com suas roupas esfarrapadas e sua expressão taciturna. A meu pedido, Elliott tocou o "New Moon" na íntegra
, meu álbum favorito do cantor. Cantarolei baixinho junto com "Going Nowhere", aplaudi a urgência de suas interpretações em "High Times" e "Riot Coming" e me emocionei com a sensibildade de "New Disaster". Elliott parecia ser alguém que compreendia os sentimentos que a solidão causa e colocova todo esse peso em suas canções, em seus acordes e, principalmente, em sua voz. Hoje em dia, na minha opinião (o que não vale de nada, rs.), o Damien Rice é alguém que herdou essa habilidade com perfeição. Mas deixarei pra falar do meu amor pelo Rice em outra ocasião mais apropriada.

E então, quando minhas retinas também sentiram necessidade de serem entretidas, foi hora de escolher uma película para ser assistida. Pensei na
solidão pungente do robozinho Wall-E, no otimismo colorido de Amélie, no amor conturbado de Jack & Ennis... mas quem acabou desempenhando o papel de companhia ideal para essa noite foi uma cópia pirata sem-vergonha de Once (na versão brasuca, "Apenas uma Vez").

Once é um dos meus filmes favoritos, embora muita gente possa achá-lo indgno de preencher tal posto, dado a trama simples, o roteiro que beira o improviso, o orçamento mínimo, as câmeras tremidas, as atuações amadoras... Mas tudo remonta à premiação do Oscar de 2008, quando me deparei pela primeira vez com "Falling Slowly". Na verdade, eu tenho um hábito estranho de assistir aos Academy Awards, porque eu nunca assisto aos filmes antes, nunca tenho para o que torcer ou como julgar se o prêmio foi justo. Mas quando vi Glen Hansard e Markéta Irglová juntos no palco, eu senti tanta sinceridade naquela apresentação, tanta sensibildade nos acordes e no dueto, que comecei a torcer como se fosse presidente do fã-clube dos dois. Achava improvável a vitória, já que havia 3 canções de um filme da Disney na disputa, mas, felizmente, a Academia aquele ano me surpreendeu. E quando eles foram buscar o prêmio, confesso que trouxeram lágrimas aos meus olhos. Não sei se eles merecem algum mérito por isso, porque eu choro até com propaganda de margarina (rs.), mas foi um dos anos em quem mais valeu a pena assistir à premiação.



Eu só viria a assistir ao filme em dvd, pois já sabia que ele nunca entraria em circuito em Nova Friburgo [desce uma rodada de blockbusters pra galera!]. E o encantamento acabou de completar-se ao me deparar com um filme que superou todas as minhas expectativas. Tudo em Once é muito orgânico, muito verdadeiro, sincero. Não há os floreios de um musical hollywoodiano ou pomposas coreografias com toda a cidade dançando junto (embora, eu deva confessar, que Mary Poppins é um clásssico na minha vida e eu adoro um musical à la "Cantando na Chuva"). A música é embutida no filme de forma natural, é parte intrínseca das emoções, dos sentimentos e das expressões dos personagens. E como as canções são belas! Dos berros desesperados de Glen em
"Say it to me now" e em "When your mind's made up" - berros que ainda me arrepiam e trazem lágrimas aos meus olhos, mesmo depois da 5º vez que assito ao filme -, às divertidas "Broken Hearted Hoover Fixer Sucker Guy" e "Fallen From The Sky", passando pelas interpretações emocionadas de Markéta em "The Hill" e "If you want me", cada canção do filme é uma preciosidade, sensível sem ser piegas, emotiva sem cair na mesmice, no simplório. Glen e Mar falam de uma forma muito verdadeira de sentimentos pelos quais todos nós já passamos e suas intepretações são sinceras, como se as cenas fossem um ensaio privado no porão de suas casas.

A verossimilhança do filme é tão grande que, em certos momentos, ganha um aspecto de documentário e você precisa lembrar-se que aquilo é ficção. Glen e Mar são tão bom juntos que Dublin fica em segundo plano, apenas uma coadjuvante (das mais belas, é bem verdade): só há olhos para os dois personagens, sem nomes, o que nos ajuda ainda mais na aproximação com a história e com os fatos - é como se pudesse ser você ali, como se aquela história pudesse ser a da sua vida. Perdidos no turbilhão de seus sentimentos, presos ainda a suas respetivas relações passadas, o filme se desenrola não como uma história de amor, como a maioria acaba pensando, mas com foco na amizade que os dois cultivam, na ajuda mútua, no abalo que ela dá na vida dele, fazendo-o acordar de uma estagnação que obstruía todo seu talento e sua vontade de viver.



Todos esses atributos de Once, ontem à noite, foram primordiais para que eu fosse dormir mais tranquilo. As lágrimas derramadas em cada canção (dignas de causar uma desidratação) levavam consigo uma angústia que até agora não consegui compreender de onde veio ou porque veio. Mas, às vezes, não importa que haja 6 bilhões de pessoas do mundo: você está sozinho. Completamente sozinho. E tem que, de alguma forma, lidar com isso.

Pra completar, Glen e Markéta e seu fantástico The Swell Season estarão no Brasil nos dias 27 e 28 de Agosto para faze shows. Minha vontade, nesse momento, é trancar a faculdade e usar a grana para poder estar lá, abraçar esses dois e agradecer pela companhia na noite passada. Mas não estou podendo ser extremista a esse ponto ainda. Portanto, se você estará no HSBC Brasil ou no Viva Rio nos dias dos shows, mande lembranças minhas. E diga que sou muito grato. De coração.

sábado, 28 de novembro de 2009

música e divagações: "Sou", por Marcelo Camelo.

Essa é a segunda edição do "Musica e Divagações", uma coluna do meu humilde bloguinho que eu gostei muito de fazer pela espontaneidade com que as palavras saem com um trilha-sonora de fundo. Mas fiquei realmente em dúvida sobre qual álbum escolher desta vez, até perceber que eu PRECISAVA escrever sobre o primeiro álbum solo do Marcelo Camelo. O porquê dessa escolha? Bem, vamos apertar o Play e aí a gente conversa...



Faixa 1: Téo e a Gaivota

"todo amor encontra sempre a solidão."

Okay, eu sei que falar d
este cd já virou assunto obsoleto, velho e ultrapassado, afinal, esse álbum é de meados do ano passado. Mas houve uma injustiça tamanha do recebimento de algumas pessoas para com essa obra. Os fãs alvoroçados do Los Hermanos não conseguiram entender muito bem a proposta do Camelo para sua carreira a solo e o que eu li de besteira por aí sobre esse álbum não está no gibi.

Confesso que meu primeiro momento diante do "Sou" também não foi lá uma experiência única e inesquecível. Acabei fazendo um desses downloads capengas que vazam antes mesmo do lançamento e o set list veio fora de ordem, trazendo "Copacapana" como faixa 1. Pensei no mesmo momento: "Puta que pariu, Camelo! O Amarante já tá fazendo isso no Orquestra!" ¬¬'
Mas não demorou para o encantamento começar a tomar conta de mim, pouco a pouco, devagar. As audições vieram lentamente, às vezes batia aquela preguicinha - porque o "Sou" não é nem de longe um álbum de fácil audição. E foi bem de repente que me peguei totalmente fascinado por cada um dos 55 minutos que compõem esse álbum.


Faixa 2: Tudo Passa
"os ais e os hãos de ser e todos os casais também."

Mas o que causou toda essa proximidade a este álbum particularmente? Okay, eu posso estar sendo um tantinho hiperbólico nessa minha próxima fala, mas arriscarei mesmo assim, com a certeza de que posso me arrepender de ter dito isso algum dia:

"Sou" é o disco da minha vida.

Uow... vejam que eu realmente acredito nisso.. Letras grandes, em negritos.. Quem sabe eu não faça uma tatuagem, rs. Just kidding.
A verdade é que são poucas as obras de artes em que eu consigo me encaixar plenamente, me ver retratado, me sentir inserido nela. Acho que o nome disso é catarse, não é Simone? (minha maravilhosa professora de Teoria da Literatura que me transmitiu em 1 ano mais conhecimento do que jamais consegui juntar nos outros 22 anos da minha vida)


Faixa 3: Passeando

"estamos sós."

Nossa, essa é nostálgica *_*

Ouça esse dedilhado... sinta a simplicidade...

Caceta! rs
.

Mas então... voltando ao assunto...
Catarse é um sentimento que lhe invade ao peito quando você está fruindo de uma obra de arte. Você pode sofrer Catarse de dois modos: sensibilizando-se dos sentimentos e dores retratados na arte pelo fato de nunca ter acontecido contigo - aquele sentimentozinho de alívio ao fim de um filme onde o casal apaixonado termina separado, por exemplo, e você pode dar graças a Zeus porque o seu amado está ainda do seu lado.


Faixa 4: Doce Solidão
"foge que eu te encontro que eu já tenho asas."

(...)
E há, em contraponto, a Catarse onde o que acontece na obra de arte parece, aos seus olhos, uma autobiografia. Aquele filme ou música que parece ter sido escrito para você, sabe? É esse tipo de catarse que eu sofro ao ouvir o "Sou". Nunca antes tinha visto meus sentimentos tão bem resumidos em apenas um discozinho brilhante. (E esse assovio de Doce Solidão? Nunca mais saiu da minha cabeça desde a primeira vez que ouvi essa faixa.)
E sim, "Sou" é um disco que fala em sua maior parte de solidão. Acho que a palavra está presente em quase todas as faixas, quando não explicitamente, escondida em algum sentido mais profundo.



Faixa 5: Janta (com Mallu Magalhães)
"caminho em frente pra sentir saudade"

Até mesmo esta faixa, que tem por essência um relacionamento, fala da solidão que existe na vida a dois. Eu amo essa faixa de paixão, mesmo com os miados da Mallu, rs. E é uma faixa que sempre serve de trilha sonora quando estou envolvido com alguém, porque em todo "relacionamento" - que saco ter que usar estas aspas, mas ainda não posso usar a palavra relaciomento no seu sentido conotativo - que me envolvo, a solidão, a tristeza e a saudade ficam espreitando à porta, me deixando inseguro, sem perspectiva... assim, tais versos simbolizam o meu medo do filme sempre se repetir:
"eu quis te conhecer, mas chega de insistir caberá ao nosso amor o que há de vir." E, infelizmente, toda vez que usei esses versos para lançar à sorte meu envolvimento com alguém, o resultado foi solidão.



Faixa 6: Mais Tarde
"acho que não vai dar, tô cansado demais."

Ah, solidão.
Ultimamente eu tenho sido muito questionado sobre minha solidão. Sobre meus hábitos taciturnos, minhas fotos tristes, meu gosto por música e filmes depressivos... E minha resposta é sempre a mesma: eu não posso fugir do que sou. Quando tiro uma foto que fica triste, nostálgica, depressiva, não é porque quero que ela saia assim. Não falo: "Peraí, Diego, espera eu ficar bem triste.. quando vir meus olhos marejar, você tira a foto, okay?" Não é assim que as coisas acontecem.

O problema é que, na verdade, quem me conhece, sabe que eu sou a pessoa que mais ri nesse mundo. Adoro dar risada, rio até da coisa mais sem graça do mundo e tenho sempre pronta uma piadinha sem vergonha para fazer. E não faço isso para parecer feliz perante a sociedade, nada disso. Tampouco uso isso para dissimular com meus amigos o que realmente sinto. Eu não tenho motivos para fazer algo do gênero. Tassiane esses dias me disse que eu preciso parar de colocar fotos depressivas no orkut, que tenho que parar de mostrar para as pessoas que sou assim. E minha resposta para ela foi simples e inexorável:


Faixa 7: Menina Bordada
"moça por favor, cuida bem de mim."

(...)

EU NÃO POSSO FUGIR DO QUE SOU!

E se minhas fotos saem da forma que saem, talvez estejam refletindo o que está na minha alma. E que mal pode haver em algo assim? Em você poder expressar o que você realmente é, sem máscaras, sem maquiagem... você, cru, de verdade. Eu só vejo beleza em uma coisa dessas.


Portanto, concluindo esse papo doido, passou da hora de refletirmos sobre esse paradigma de que a tristeza é má. Okay? Podemos ser mais sensatos que isso. Pra mim, toda boa obra de arte tem uma boa dose de tristeza e minha essência também é feita disso. É essa tristeza íntima e benéfica que me faz ter a visão de mundo peculiar que tenho.
Obviamente que às vezes essa essência me faz mal e me deixa triste do jeito ruim da palavra. Mas tudo na vida tem esse lado pesado e obscuro.. e chega de filosofia de boteco que eu já estou falando bobagem, rs.


Faixa 8: Liberdade (com Dominguinhos)

"é deus, parece que vai ser nós dois até o final."

Bom, como falei quando fiz o "Música e Divagações do Kings", eu não tenho nenhum conhecimento teórico sobre música. O meu gosto vai muito por alguma coisa íntima, uma melodia que me pega desprevinido, um som que me faz sonhar e viajar, um verso que significa muito mais que palavras em um ordem sintática... E eu gosto muito dessa relação que tenho com a música, uma relação que parece uma amizade. Às vezes você tem amigos que não são lá grandes gênios contemporâneos, mas você ama aquela pessoa do jeitinho que ela é... E a música pra mim pode ser a mais simples possível, contanto que desperte em mim algum sentimento bom.



Faixa 9: Saudade (instrumental, por Clara Sverner)


(...) Digo isso tudo porque este álbum do Camelo tem seus momentos orquestrais e tem momentos da pura simplicidade de um violão dedilhado. Se "Téo e Gaivota" tem sua beleza complexa ressaltada pela particapação do Hurtmold - banda de música instrumental que acompanhou o Camelo na gravação do álbum e na turnê -, "Saudade" à voz e violão não perde um mísero ponto por ser mais simples e delicada.
Essa é apenas uma agulhadinha em gente que acha que música é aquela que faz quebrar os dedos pela complexidade das notas.
Há música na simplicidade. E bela música, por sinal.


Faixa 10: Santa Chuva

"meu coração já se cansou de falsidade."

Essa aí ele escreveu, deu de presente para a Maria Rita e depois tomou de volta, rs. Eu gosto muito mais da versão dele. E é engraçado que na época do Los Hermanos eu sempre fui mais fã das canções do Amarante. As do ruivo sempre eram as consideradas favoritas por mim, até que, ao ouvir o "Sou", fui levado a uma reflexão profunda sobre o lirismo de Camelo. Não que desgostei das do Amarante, mas passei a dar mais importância a canções que antes me passam meio despercebidas.




Faixa 11: Copacabana
"todo destino padece aqui."

Aaaah, olha a dita cuja aí! rs.
Okay, estranhei ela de começo, mas agora eu adoro. Mesmo odiando carnaval e as coisas que remetem a ele... Mas essa música tem um ar nostálgico da época que o carnaval parecia ser uma coisa bacana... Gostaria de ter presenciado essa época do carnaval.


Faixa 12: Vida Doce
"assim eu caminho no tempo que eu bem entender."

Puta que Paréu! Eu sou completamente apaixonado por esta música.
Adoro o ritmo de carimbó, adoro a letra, adoro o jeito arrasto do Marcelo cantar... Essa é, a propósito, o toque do meu celular, rs.. Sendo que ando precisando trocar isso, porque me traz más recordações >.< Bem, vou começar as considerações finais, porque com certeza elas renderão as próximas 2 faixas. Meu amor por esse cd cresce a cada dia mais, a cada escutada, a cada análise das nuances das letras, a cada descoberta de um novo som, uma sutileza no dedilhado ou um minúcia no tom de voz do Camelo.


Faixa 13: Saudade

"amor, eu vivo tão sozinho de saudade."

(...)
E esse amor é sim um amor triste, porque "Sou" é uma obra triste. Mas ela revela em suas entrelinhas uma esperança de uma Vida mais Doce, de um encontro com a Liberdade, de acontecimentos felizes guadados para Mais Tarde. E precisamos aprender a ver sutilezas escondidas na tristeza e na solidão. Porque o crescimento e amadurecimento sentimental estão escondidos nos momentos em que sofremos. Não há crescimento na alegria, não há reflexão num momento feliz. Pelo menos assim eu acho.


Faixa 14: Passeando (instrumental, por Clara Sverner)


Obrigado, Camelo, por ter colocado toda a sua alma em cada nota desse álbum e ter compartilhado com a gente a transparência de sua sensibilidade. E fica assim: até segunda ordem, "Sou" é um retrato dos recônditos mais profundos da minha alma.

domingo, 18 de janeiro de 2009

pequena nota desinteressante sobre uma caminhada ao crepúsculo.

ato os cadarços imundos do meu adidas, pego algum dinheiro apenas por garantia e, ajeitando os fones nos ouvidos, jogo meu iPod no bolso da bermuda. é incrível como a companhia do pequeno objeto portátil tocador de músicas às vezes é tão lívida e suficiente quanto a de uma pessoa e como as doces melodias que ele propaga são capazes de preencher os espaços vazios tal como uma boa conversa. é uma pena que ele seja exímio apenas como interlocutor, e sequer se importe com o turbilhão de emoções que se afloram em meu peito.

a passos firmes e vívidos, começo a traçar o itinerário já devidamente conhecido. é sabido que às vezes torna-se mais interessante arriscar-se em novos trajetos e que a aventura de andar por onde nunca ninguém andou é um estimulante à intensidade da vida, mas não é tão simples largar a comodidade de seguir os próprios passos que você deixou na areia no dia anterior. a beleza do dia é tão humanamente imperfeita que traz lágrimas aos olhos: a luz crepuscular, branda, aquece meu corpo, enquanto o sol, generoso, não se importa de dividir a imensidão celeste com as desimportantes nuvens alvas. há poesia ali. sutilmente, a imperfeição do dia declama um idílico soneto sobre a beleza das coisas mais simples e singelas da vida. nem todos conseguem ouvi-lo: talvez faz-se necessário se perder na tênue linha entre ser uma pessoa complexamente simples ou imperfeitamente complicada para tal. eu o ouço perfeitamente.

subitamente, a calçada simetricamente entre o rio e a avenida sussurra em meus ouvidos um convite à corrida. eu gosto de correr. o vento no rosto enquanto seus pés chocam-se deliberadamente contra o chão irregular é uma das formas mais palpáveis de liberdade que já experimentei. mas quando deixamos de ser garotos travessos, aprendemos que não podemos correr sempre que temos vontade. os pés devem estar sempre pregados ao chão numa caminhada ritmada e uniforme, sem riscos, sem aventuras. eu contraio o impulso tentador de correr. na verdade, eu me rendo facilmente à segurança de andar devagar, porque temo as possíveis quedas e tropeços. e sei que essa covardia é um paradoxo pra alguém que acredita tão cegamente na magia da vida, que arma conspirações a cada olhar lançado por um estranho na rua ou que arquiteta pequenos atos teatrais a cada esquina deserta, mas, no momento, não é viável pra mim acelerar uma caminhada que sempre deu-se a seu próprio ritmo. talvez esse seja o grande erro da minha personalidade: transformar qualquer irrelevância numa peça da brodway – ou, qualquer caminhada às 5 da tarde num texto com mais de 30 linhas.

minhas divagações são abruptamente interrompidas quando um olhar a sudoeste capta nuvens enegrecidas lançando águas turvas sobre a parte sul da cidade. breco de chofre e ponho-me a devanear sobre meu próximo passo: um banho de chuva tem o inexplicável poder de revigorar nossa energia e de lavar profundamente nossa alma, limpando-a das impurezas acumuladas nos cantos onde não permitimos que nossa esperança alcance. um banho de chuva pode subitamente ser um jorro de vida sobre você. a chuva tem esse poder. não obstante, eu sou um covarde. falta-me coragem para chegar em casa encharcado por uma discrepância climática.

lanço um último olhar desejoso às nuvens carregadas e volto para a segurança do brilho opaco de fim de tarde.

sábado, 8 de novembro de 2008

o menino que sobreviveu.

ontem foi aniversário de - com o perdão da hipérbole - umas 3 mil pessoas da minha família e eu fui em duas pequenas reuniões para comemoras tais datas: uma na casa da minha irmã e outra na casa da minha tia rose.

durante a segunda, quando já estávamos indo embora, meu pai comentou com um pequeno grupo de pessoas a respeito da minha operação e seus resultados. pediram então para que eu mostrasse como tinha ficado e tirei o boné sem problemas, recebendo reações positivas e elogios sinceros de que estava ótimo e quase imperceptíveis as marcas da queimadura. leandro, meu primo e também aniversariante do dia 7 de novembro, comentou então, em tom pesaroso:

"eu lembro da época que você estava no hospital, todo roxo, com a cabeça desse tamanho (esticando as mãos a uma distância de 30 cm uma da outra) por causa da inchação. "

em outro relato, tia rose disse:

"a imagem que mais me marcou de tudo foi quando cheguei ao hospital e o renato (meu pai) estava com você no colo, chorando descontroladamente, enquanto você estava em completo silêncio, a sopa escorrendo do seu corpo e molhando as costas do seu pai."

confesso que meus olhos marejaram com essa narração, mas karla, minha prima também, completou com bom humor:

"a verdade é que disseram: 'eita, esse cara tá bonitão demais, vai ficar vaidoso e se achando. precisamos dar um jeito nisso'. e daí te deram uma rasteira pra que você não ficasse se gabando muito.

okay, apelou nessa, karla (rs).

mas a verdade é que eu continuo aqui. minha vida tinha todos os motivos pra acabar naquela noite de 1987, mas uma reviravolta me deixou crescer praticamente intacto e tudo que resta agora daquele episódio são pequenas cicatrizes quase imperceptíveis no meu braço direito e algumas falhas no meu couro cabeludo. de uma tragédia que deixou minha cabeça do tamanho de uma bola de basquete sobraram marcas superficiais. e, o que eu me pergunto, é o porquê disso. por que ainda estou aqui se a vida teve a chance certa de me levar embora?

eu explico.

já faz praticamente 23 anos que estou ocupando espaço no planeta terra e até hoje eu não recebi um sinal claro e nítido do por quê de minha existência. eu podia simplesmente aceitar o fato de estar vivo, mas pra mim isso é pouco. eu acho que qualquer existência precisa de um motivo, porque é um pensamento medíocre demais acharmos que estamos aqui pra nascer, viver e morrer. e não falo de atos exorbitantes que mudam o trajeto do mundo, afinal, nem todo mundo é um alma evoluída e não nasce um john lennon todo dia, não é mesmo? (e quem não acha que os beatles são um fato que mudou o trajeto do mundo merece arder no mármore do inferno, rs). quando eu falo de um motivo pra existir, falo de coisas bem mais simples e sutis que podem ser de total irrelevância pra uma pessoa ambiciosa ou materialista demais. porque, na minha concepção, vir para o mundo apenas para trazer um sorriso para um rosto desamparado é completamente satisfatório. estar aqui simplesmente para completar a vida de alguém, para ser a outra metade, o alicerce é um ótimo motivo pra ter todos os dias os pulmões preenchidos de oxigênio. vir para amar, pra trazer bons pensamentos e boas ações devia ser o suficiente para cada pessoa achar um bom motivo pra estar vivo.

mas eu fico meio puto de olhar pro reflexo do espelho e ver um nada materializado. de não estar completando a vida de ninguém, de não estar propagando nenhuma boa atitude num mundo que tanto está precisando ou de estar pra não ser somente mais um acomodado com a mediocridade. eu sei que não tenho capacidade de ser um marco na história e nem tenho ambição para tanto, tampouco tenho tendência ao altruísmo mas eu me contentaria em ser alguém, sabe? em olhar pro espelho, abrir um sorriso e dizer: "você é a metade da vida de alguém. é o motivo do sorriso de alguém. você ama alguém e esse amor é retribuído. você tem um motivo para acordar toda manhã. você não está nesse mundo à toa, cara." mas tudo o que tenho todos os dias é um trabalho onde as pessoas me olham de cima, como se eu estivesse no meu exato lugar e nada além de ser um balconista-carregador-de-caixas estivesse guardado no meu futuro. a cada dia, meu coração se acostuma mais com a solidão, a ponto de às vezes eu desejar ficar sozinho mesmo e me sentir absolutamente confortável com isso.

de certa forma, eu sou o menino que sobreviveu, assim como o harry potter. ele, sobreviveu pra salvar o mundo dos bruxos. eu, se conseguir salvar pelo menos o meu, já estarei deveras satisfeito.