Entro pela porta dos fundos. Sei que não sou bem-vindo e não gosto da prepotência que exigiria uma entrada pela porta da frente. Meus passos, como de costume, são sorrateiros e calmos, de uma serenidade adquirida com o passar de muitos anos. Alcanço a cozinha e encosto-me sobriamente no batente da porta. Trata-se de um simplório cômodo fracamente iluminado pela luz do fim do do dia. Sobre o fogão escarlate, uma panela inunda a cozinha num vapor aromático, onde ferve uma sopa de legumes e macarrão. As vidraças da janela-basculante embaçam-se na quentura da cozinha e a mãe repousa a colher com que mexia a refeição sobre a pia, virando-se pro pequeno garotinho aos seus pés. "A sopa já está quase pronta", ela diz num tom amável, ignorando minha presença. "Vou ali no quarto buscar um pano para tratar-te. Cuidado com o fogão que a sopa está fervendo."
A mãe atravessa o pequeno corredor e entra no quarto. Olho para o menino. Não gosto quando são crianças. É deveras doloroso para mim. Deve ter por volta de três anos, um pedacinho de vida que não ultrapassa os noventa centímetros, dono de dois olhinhos castanhos expressivos e curiosos. Me aproximo lentamente lançando-lhe o melhor sorriso que possuo, embora não exista qualquer vontade de rir em mim. Abaixo-me e deixo meus olhos azulados na altura dos dele. Minha voz é suave, na medida exata para não assustá-lo: "Hey rapaz. Você parece meio cansadinho. Tá cansado, é?" O molequinho meneia a cabeça, coçando o olho com a ponta do indicador. Num movimento rápido, alcanço a alça de ferro da tampa do forno. Temo que o barulho alerte sua mãe, mas ela não aparece. Sob o fogão, a sopa borbulha violentamente. "Pronto, sente-se aqui pra descansar um pouco", digo a ele, apontando para a tampa do forno aberta. Obediente, o menino se senta, absorto na ingenuidade inerente às crianças. Ajo rapidamente. Com frieza. Ponho-me de pé e meus dedos agarram o fogão, virando-o sobre o menino.
O protocolo é claro: não devo permanecer no local depois que acontece. Mas o abrupto estrondo do fogão chocando-se contra o chão, enquanto o líquido fervente escorria sobre os cabelos encaracolados do menino, trouxe sua mãe rapidamente à cozinha. Pude ouvir seu coração: era o som de cem tambores rufando em uníssono. Vi o pavor em seus olhos quando suas mãos trêmulas puxaram o garoto encharcado do chão e o seguraram contra seu peito. O garoto sufocava numa mistura mortal de dor e susto e aquele panorama me prendia ali, embora soubesse que já devia ter ido embora. Não havia mais ninguém em casa e, enquanto lágrimas desesperadas surgiam em seus olhos, a mãe correu em direção à rua, apertando o filho contra o peito como se, assim, retroagisse o tempo e evitasse o que acabara de acontecer.
É a minha maior fraqueza: a compaixão que habita meu coração e toma conta das minha atitudes de vez em quando. Sei que não posso ser submetido a ela. Sei que preciso ser forte nesses momentos e cumprir o papel que me é designado. Mas, às vezes, simplesmente não consigo. Segui a mãe e o garotinho de perto e os alcancei quando ela conseguiu uma carona para o hospital com um morador do bairro. Sentei-me ao lado deles, no banco de trás, o carro tomando a rua com velocidade e desespero. O menino começa a ganhar uma cor púrpura, a intumescência tomando conta de sua face tão frágil e ingênua. Segurei sua mãozinha banhada da sopa fervente, a pele em carne viva, e disse-lhe ao ouvido, calmamente: "Hey, Rapha. Fica calmo, tá bom? Vai ficar tudo bem."
A explosão de luzes escocesas. Lívidas. Multicoloridas. Do vermelho sinistro ao amarelo catastrófico.
As cortinas alvas que escondem o picadeiro de desejos. O espetáculo não ensaiado regido pelo nervosismo da possível plateia. O sorriso... Ah, o sorriso.
Teus passos nos degraus estreitos. Tua silhueta lânguida contra o resquício de luz do corredor mal-iluminado. O abrir da porta e os corpos que se encontram num breu, estranhamente, tingido com pincéis alvoroçados e aquarelas ansiosas.
O fechar dos olhos. A penumbra matinal, o fim da farra vizinha, o silêncio sufocado. Como posso ver-te tão nitidamente na tênue linha de luz que ultrapassa a frincha da janela? Brilhas em cores pálidas e oníricas que confundem oticamente minhas retinas exaustas.
O zéfiro de tua respiração em meu pescoço, o deslizar dos dedos no sono leve. As primeiras cores da manhã nublada revelando nossos corpos no teto. O encaixe, o arrepio de frio contido com o peso de tuas pernas sobre mim.
O gosto úmido nos lábios e no pescoço. A intumescência da respiração, a urgência dos suores. O turbilhão de voluptuosas cores e desejos. A suavidade questionadora de teu dedo em minha testa.
Os olhos castanhos. Os teus apertados e brandos, os meus vastos e irrequietos. O reflexo das luzes silenciosas nos plácidos espelhos que eles compunham.
A última gota de saliva em teu pescoço tenso. O silencioso abotoar das camisas, o descer das escadas e a opacidade da luz nas ruas ofendendo nossos olhos preguiçosos.
O esplendor amarelado do desjejum.
E os passos bambos pela cidade calma. Brilhas tão forte ao meu lado que me afogo lentamente no teu mar de cores pungentes. Reprimo a vontade instintiva de abraçar-te, contento-me em mirar o horizonte do teu sorriso.
O navegar pelo rio que me apresentas pacientemente, entrelaçando seus dedos nos meus. Chegamos à nascente dele e, depois de um último abraço, assisto a tu sumir à primeira curva.
Tuas cores colorem meus dias seguintes. Tento, em vão, guardar um tantinho da tua luz numa caixinha esverdeada. Mas, como uma estrela efêmera, a luz extingue-se e as cores se dissolvem numa tempestade acinzentada de frustração.
Tudo é preto-e-branco novamente. Resta apenas a monocrômica solidão angustiada que se torna, cada vez mais, parte idiossincrática de mim.
Era início de outubro quando descobri que Belle and Sebastian, uma de minhas bandas favoritas, estava de malas prontas para desembarcar no Brasil. Como vocês sabem, sou universitário, destes que encarnam muito bem o papel e vivem duros, contando as pratinhas para a xerox de apostilas. Mas resolvi que essa era uma ocasião especial e quebrei o porquinho, juntei as economias e adquiri meu ingresso - deixando algumas apostilas de História da Língua Portuguesa para um futuro remoto.
O dia era 12 de Novembro, uma sexta-feira acizentada e úmida. Os planos eram pegar meu ingresso com a Nati no Rio às 17h e seguir, com o auxílio da minha santa Tia Cléia, para a casa da Karla, minha prima, com quem iria ao show. Contudo, quando sua banda favorita está prestes a tocar, a lei de Murphy estará à espreita, preparando o bote.
Cheguei às 14h à rodoviária, já descobrindo que o próximo ônibus para o Rio com poltronas vagas só partiria às 16h. Sem problemas, a baldeação é um amiga minha de outros carnavais. Assim, de Friburgo para Cachoeiras, de Cachoeiras para Itaboraí e, finalmente, de Itaboraí para o Rio, uma rota que economiza na grana proporcionalmente o que gasta na paciência. Três ônibus e um atraso não previsto na agenda. SMS para a Nati, possuidora do meu ingresso até então, que avisa que não pode me esperar e precisa atravessar para Niterói. Lá se vai meu ingresso, cruzando a Guanabara numa barca velha.
Passava das 18h quando desembarquei no Rio, achei minha tia e fomos juntos para o terminal das barcas. Sexta-feira. Horário de rush.PUTA QUE PARIU, como tinha gente naquele lugar! Uma fila de 30 minutos, uma viagem numa barca abarrotada e, finalmente, tinha em mãos a preciosidade da noite, disfarçada de uma filipeta de papel de 15 cm. Era mais de 20h quando tomamos o ônibus de volta para o Rio, rumo à casa da Karla. Lembro-me do nervosismo, da ansiedade e, acima de tudo, do medo de perder o show que me assolou durante o percurso do coletivo.
Às 22h, encontro Karla na esquina de sua casa. Faltava 1h para o show. Lache rápido, trocas de roupas, compras de quilos de alimentos e, proxíma parada: Lapa. Encontro o Lucas - um amigo com o qual havia marcado de assistir ao show junto - na fila e, lutando contra todas as forças que regem o planeta Terra, estava dentro do Circo Voador na hora programada.
Os escoceses entraram no palco com 30 min. de atraso, Murdoch com roupas invernais que contradiziam o clima quente que tomaria conta do show. "I didn't see it coming", faixa que abre o álbum mais recente, também abre o show, e um coro estridente de arrepiar os pelos acompanha a voz delicada e suave de Sara, que era só sorrisos. Seguiram "I'm a Cuckoo" e "Step Into My Office, Baby", ambas do álbum "Dear Catastrophe Waitress", que já mostravam o rumo que o show tomaria: a melancolia tão característica de Murdoch e sua trupe daria espaço para as canções mais dançantes, do indie pop de "Dirty Dream #2" e "Write About Love" às feitas para cantar junto, como "The Wrong Girl" e "Another Sunny Day". O vocalista esbanjou carisma com suas dancinhas exuberantes e suas arranhadas no português, chegando a atravessar o público no meio de "If you find yourself caught in love" para terminar a canção na arquibancada superior do Circo. Momento de delírio coletivo.
A doçura das melodias mais melancólicas esteve salpicada num setlist feito para agradar a novos e antigos fãs: "Lord Anthony" e "The State that I'm in" arrancaram suspiros, enquanto clássicos do "If you're feeling sinister" (meu álbum favorito dos caras de hoje e sempre), como "Judy and the Dreams of Horses" e "Like Dylan in the Movies" foram acompanhadas com aplausos calorosos e coros emocionados. Esqueci-me até da ausência da canção homônima desse segundo álbum quando pude berrar a plenos pulmões os versos de "The Loneliness of a Middle Distance Runner". Também vale ressaltar o quão bacana ficou o arranjo que fizeram para "Piazza, New York Catcher", canção que Murdoch cantou sentado à beira do palco, derramando simpatia para a plateia.
Se me pedirem para ser imparcial e dizer como foi o show do Belle and Sebastian do Circo Voador, sou obrigado a assumir que não conseguiria. Era uma das minhas bandas favoritas há pouco mais de 20 m de distância, tocando todas as canções que eu já havia ouvido à exaustão. Mas assista ao vídeo de "Get me Away from Here, I'm Dying", faixa que fechou o show, e tire suas próprias conclusões. Se o show de São Paulo foi acusado pela imprensa de ser frio, podemos dizer que os cariocas mostraram aos escoceses todo o calor do nosso país.
Como eu poderia não me identificar com "Onde vivem os Monstros" - filme que retrata com tanta sensibilidade o mundo secreto da imaginação de uma criança - se fui eu também dono de um vasto mundo quando era um pivetinho mirrado correndo pelas ruas da Chácara do Paraíso? Como não me emocionaria ao ver o pequeno Max criar a aventura de sua vida se ainda hoje sinto falta das peripécias criadas pela minha imaginação há alguns muitos anos atrás? E como, depois de assistir ao belo filme, não me sentir tentado a fazer mais uma visita a esse meu mundo, que guarda em suas paredes multicoloridas os dias mais felizes da minha vida?
As brincadeiras de rua nunca foram suficientes para o pequeno Raphael e seu inseparável boné: não bastava rodar pião, soltar pipa, esconde-esconde e io-iô. Ele queria criar mundos, não importa como fosse. As pedras do seu quintal foram forçadas a se metamorfosear e ganhar vida, tornando-se, cada uma delas, um violento tiranossauro-rex, uma baleia jubarte e até um sapo gigante. Gabava-se da destreza com que pulava de uma para a outra, da agilidade com a qual transitava entre os muitos mundos dos limites do seu quintal. A obra ao lado da sua casa nunca poderia ser simplesmente uma residência em construção. Havia tardes em que ela navegava em mares turbulentos, na forma de uma barco predestinado a naufragar, graças a uma bomba armada por algum ardiloso vilão. A mesma obra podia tornar-se uma escola para as aventuras teen de uma galerinha que adora pintar o sete, como diria o narrador da Sessão da Tarde. E, no alto da megalomania de sua mente, tudo aquilo era uma ilha de pescadores pronta para acompanhar uma ávida história de amor entre uma modelo e um empresário - um roteiro nada infantil que o pequeno encenou sozinho, fazendo todos os papéis. Seu mundo muitas vezes não estava aberto para visitas, era necessário viajar sozinho e se perder em suas matas fechadas - representada tão bem pelo limoeiro no centro do quintal, ao lado do enorme pé de fruta-do-conde. Naquela época, correr sozinho pelo quintal não era sinal de tristeza e solidão. Era apenas a hora de ser egoísta e ter a aventura só para ele.
Mas bom mesmo era cruzar a cerca-viva que separava minha casa da do Léo Jaime e ir desbravar novos mundos. Juntos, inseparáveis, montávamos mundos em miniaturas no quintal dele, com todos os tipos de objetos possíveis. Quando Ritiele estava junto - e não estava chorando, sua especialidade - fazíamos nossa espetacular encenação baseada nos personagens do Senninha, reflexo do impacto causado pela então recente morte do piloto. Um pouquinho mais à frente havia a casa da Dona Lurdes, minha avó adquirida por empréstimo, de paciência infinita com a criançada que se acumulava na varanda da sua casinha. Era tanto amor pela velhinha que havia disputa para saber quem seria o primeiro a dar-lhe um beijo de bom dia - o que me fazia, muitas vezes, despencar para a casa dela às 6 da matina. Com doçura de dar gosto, lembro-me de seus olhos gentis, dos seus braços flácidos me rodeando e do carinho recíproco com que ela me recebia todas as manhãs. Lembro-me também de entrar em minha casa a passos sorrateiros e roubar alguns ovos da geladeira para que Dona Lurdes fizesse um delicioso omelete para todos nós. Improvisávamos uma festa e, dando uma breve pausa nas brincadeiras, devorávamos o omelete.
Em algum tempo, Léo e Riti se foram. Era hora de expandir os horizontes, aumentar os domínios do meu mundinho particular. Chegava agora à Rua Eugênio Couto e, rapidamente, adquiri um novo companheiro para minhas aventuras estapafúrdias: eu e Filipe construímos parques aquáticos para bonecos - época em que ele deixou uma calha cair da laje de sua casa e perfurar meu braço -, criamos telenovelas juvenis baseadas em livretos de conscientização do governo, romanceamos vídeo-games de luta (com participação especial de Peterson e sua irmã), redigimos revistas em quadrinhos, criamos toda uma série de monstros com os moradores ilustres do bairro, enfrentamos zumbis, fizemos corrida de litros pelo rio... Poderia inumerar por linhas e mais linhas por quantas aventuras Filipe foi meu fiel escudeiro, mas já ficou suficientemente claro que ele era engrenagem fundamental para o meu mundo criativo.
Outras peças importantes no tabuleiro da minha infância são Diego, Gustavo, Marcinho, Luiz (que hoje em dia é Gustavo), Carola, Carina, Diogo (onde quer que ele esteja) e por que não Josy, não é mesmo? Este post é dedicado igualmente a todos vocês que se tornaram marujos, piratas, bandidos, detetives e caçadores de zumbis por tantas e tantas vezes, mergulhando de cabeça num oceano de invenções malucas criadas por mim.
Contudo, uma hora a voz engrossa, o bigode cresce e a ingenuidade e pureza esvanecem, massacradas pela realidade, pelo compromisso, pela chatice que é se tornar adulto. Restam fotografias polaroide, dentro de sua mente, das viagens que você fez para um mundo que, agora, só existe na sua memória.
Antes de qualquer outra coisa, dois avisos sempre válidos quando escrevo este quadro aqui no blog: eu não entendo quase nada de música, sou um mero apreciador sem conhecimentos profundos ou estudos sobre música. Portanto, tudo aqui é muito superficial - afinal, quem sou para analisar Belle and Sebastian, não é mesmo? Em segundo lugar, o Música e Divagações não é resenha, crítica ou artigo musical, mas simplesmente um espaço onde coloco um bom álbum para tocar e escrevo o que me vier à cabeça. Por isso, você, fã mala e super-indie que foi trazido até aqui pelos caminhos tortuosos do Google, ainda dá tempo de ir embora sem querer me matar com requintes de crueldade. Obrigado pela compreensão.
Ah, Belle and Sebastian! Lembro-me da primeira vez que ouvi uma canção deles, para vocês perceberem o quão importante é esta banda em minha vida. Estávamos eu e Bia¹ no Emi Esse Ene - a loira, que ganha o número 1 porque chegou primeiro; não quero brigas entre vocês duas - trocando figurinhas musicais, como sempre fazíamos. Conheci tantas bandas graças às dicas dela e acredito que também fiz boas indicações. Naquela noite, ela me perguntou se eu conhecia Belle and Sebastian. Minha resposta foi categórica: "Não conheço e nem quero conhecer". Sim, é verdade. eu reneguei uma das minhas bandas favoritas antes mesmo de conhecê-la.
Faixa 2: Come on Sister
"You could love
After all that's what you're looking for
You can love
It's a currency unspoken of."
Minha resposta tem um porquê, embora eu não saiba se esta é uma explicação válida: na época, adepto da vagabundagem, eu gastava minhas manhãs assistindo à programação matinal da Mtv. Era uma hora marginalizada onde eles comprimiam os clipes que o público-alvo não tinha interesse nenhum em assistir. Foi ali que tive a chance de conhecer bandas como Franz Ferdinand, Kings of Leon, Killers e Bloc Party, só para citar algumas. Vale ressaltar que há 5 anos atrás eu era um analfabeto digital e foi a Mtv que me salvou da alienação radiofônica.
E onde o Belle and Sebastian entra nisso?
Nessa época, o clipe de "Step into my Office, Baby" era presença certa em todas as manhãs. E eu simplesmente odiava a música, o clipe e tudo mais. Mas não se preocuparem, eu já corrigi esse pequeno deslize e hoje em dia eu adoro a música.
Faixa 3: Calculating Bimbo
Falando um pouquinho sobre o "Write About Love" antes de voltar à (nada) interessante narração sobre meu contato inicial com a música dos escoceses, "Calculating Bimbo" é, indubitavelmente, desde o primeiro momento que ouvi o álbum na íntegra, a minha música favorita deste sexto disco de estúdio. E pelos comentários que vi por aí no last.fm e no orkut, creio que não sou o único que pensa dessa forma. É uma das poucas canções que me passam sentimento de verdade, como os álbuns anteriores. Gosto da euforia de "Come on Sister" também, e "I didn't See it coming" é uma faixa direitinha, na linha. Mas a trinca inicial tem seu ápice com essa melodia maravilhosa de "Calculating Bimbo", com certeza. É uma pena que cheguemos a pensar que a coisa vai dar uma guinada e o álbum vai deslanchar, mas são expectativas frustradas, já vou avisando.
Faixa 4: I want the World to Stop
"I want the world to stop
Give me the morning, give me the afternoon
"The night.
Essa é uma das faixas que gosto bastante também. Gosto do ritmo da bateria e, de alguma forma, ela é uma das poucas que ainda me lembram o Belle and Sebastian clássico. Corrijam-me se eu estiver viajando bonito. E aproveite, povo, aproveite. O álbum vai desandar em poucos instantes.
Bom, então graças à faixa inicial de "Dear Catastrophe Waitress" eu reneguei o Belle and Sebastian num primeiro momento. Mas Dona Bia Fiola foi insistente e devo ser grato a ela por isso pelo resto dos meus dias: "Rollercoaster Ride" me foi enviada e "OMFG, que coisa linda é essa que você tá me passando, Bia?" foi o primeiro pensamento que me veio à cabeça. Logo depois ela me passou "Beautiful", "I'm Waking Up to us" e "Get Me Away from Here, I'm dying" e pronto. Já era amor.
Faixa 5: Little Lou, Ugly John, Prophet Jack (feat. Norah Jones)
Vocês sabem que bandas bacanas têm fãs chatos, né? Não sei como ninguém fez um estudo detalhado sobre isso ainda, vocês estão perdendo dinheiro. É porque não me sinto exatamente gabaritado, porque senão eu provaria essa tese. Basta pegar os fãs do Los Hermanos, do Belle and Sebastian e de meia dúzia de bandas indie que está tudo muito bem provado, é só assinar.
Mas então, imagina só a reação desse povo mala e xiita quando viram sua banda do coração dividindo o microfone com Mrs. Jones? Eita, foram espinhos para todos os lados. Antes mesmo de ouvir a música, já havia lido que era a pior faixa do Belle and Sebastian de todos os tempos. E de certa forma, o peso dessa opinião pesava todo para cima da pobre moça.
Agora, eu gostaria de saber: qual o problema com a gracinha da Norah, hein? Falta de talento não é, tenho certeza. Destoou do som dos escoceses? Também não acredito, a doçura da voz dela se encaixou bem na faixa, embora o Murdoch desse conta dela sozinho - isso é saudade da Isobel? Esse monte de cantora pelas faixas?
Eu acredito que o problema com a Norah Jones é pura e simplesmente a fama dela. A falta de status indie, de discos independentes e de shows para 200 pessoas. Portanto povo, Get Over It, please. Acho a faixa linda. E ponto.
Faixa 6: Write About Love.
"You've got to see the dreams through the windows
and the trees of your living room."
A faixa-título pra mim é o momento final do álbum. Sim, ainda faltam 5 faixas, mas tudo agora não passa de arranjos inexpressivos, música sem alma, canções que não fariam muita falta no mundo se não existissem. À primeira audição, tudo soou muito bacana para mim, afinal, esse é o primeiro álbum do Belle and Sebastian que presencio o lançamento - "The Life Pursuit" foi lançado em 2005, quando eu ainda não ouvia a banda. Mas depois de 2 ou 3 audições, comecei a notar que muitas das faixas eram tediosas. Não senti aquela vontade absurda de ouvir várias e várias vezes, excetuando "Calculating Bimbo". E pior ainda, o CD saiu na época em que eu tava descobrindo a música de Nina Simone. Foi uma disputa completamente desleal.
Faixa 7: I'm Not Living In The Real World.
Acho esta faixa uma bagunça, não gosto do refrão e tampouco deste vocal, que não sei de quem é. Se "Calculating Bimbo" está no extremo positivo, "I'm Living in the real World" está no exato extremo oposto. Espero sinceramente que eles não resolvam tocá-la no show, porque tem muita coisa dos álbuns anteriores que a gente prefere ouvir do que estas canções sem graças.
Voltando à história da entrada do Belle and Sebastian na minha vida - esse post tá uma zorra, Zeus do Olimpo! -, fui aos poucos baixando os álbuns da banda, depois da introdução feita pela Bia e, então, finalmente me deparei com o "If You're Feeling Sinister". Sim, foi um momento sublime. Perfeito na íntegra, ouvi à exaustão e de lá saiu a maioria das minhas canções favoritas da banda. Comecei a comprar os álbuns e dvd's e, quando percebi, tinha uma pequena coleção de material dos escoceses. Aos poucos, viravam uma de minhas bandas favoritas.
faixa 8: The Ghost Of Rockschool.
Falando nos shows, os escoceses desembarcarão em terras brasileiras nos dia 10 e 12 de Novembro para dois shows em São Paulo e no Rio, respectivamente. Eu sei que perder este show pode ser atestado como retardamento mental - não para quem perdeu o show do Damien Rice, né? -, mas eu ainda não tive certeza absoluta se poderei ir. Estou mobilizando empréstimos com agiotas e quem saiba eu desça a serra andando, não é mesmo? Essa vida de universitário não tá fácil.
Faixa 9: Read the Blessed Books.
Eu acho essa faixa muito bonitinha. Gosto do violão dedilhado e da doçura da voz do Stuart. E por falar nessa doçura tão característica do Belle and Sebastian, banda pouco indicada para diábeticos musicais, talvez aí esteja o meu problema parcial com esse álbum. Estou em uma época nada doce da minha vida, beirando a infelicidade, de verdade. E, embora escrever sobre o amor seja uma ótima ideia, não faz parte da minha verdade neste momento.
Então, não descarto a possibilidade de daqui a alguns meses (eu não posso falar anos; meu coração não aguentaria tanto tempo) pegar este álbum para ouvir novamente e cada notinha dele fazer o mais pleno sentido. A música, muitas vezes, segue a direção dos nossos sentimentos, e precisamos estar atentos a isso quando ouvimos certa banda.
Faixa 10 - I Can See Your Future.
Portanto, se fosse para escolher uma música do Belle and Sebastian para definir como ando me sentindo, seria essa aqui:
"I don't love anyone. Not even Christmas. Especially not that.
I don't love anyone."
Uma postura um tanto pré-adolescente revoltado, mas cada um cuida do que traz dentro do coração, não é mesmo?
Faixa 11: Sunday's Pretty Icons
Também gosto bastante desta faixa que fecha o álbum. "Write About Love" não é um disco ruim, se você conseguir separá-lo de uma discografia que inclui duas obras-primas como "If you're feeling Sinister" e "Tigermilk". Mas se um amigo, algum dia, quiser começar a ouvir Belle and Sebastian e pedir uma dica de por qual álbum começar, nunca a resposta será "Write About Love", porque ele não traz a essência de uma banda tão bonita e emblemática. Mas, se for possível deixar o saudosismo de lado, você pode ter momentos divertidos e agradáveis com esse sétimo álbum da banda. Boa audição!