domingo, 10 de outubro de 2010

o fantástico mundo de rapha.

Como eu poderia não me identificar com "Onde vivem os Monstros" - filme que retrata com tanta sensibilidade o mundo secreto da imaginação de uma criança - se fui eu também dono de um vasto mundo quando era um pivetinho mirrado correndo pelas ruas da Chácara do Paraíso? Como não me emocionaria ao ver o pequeno Max criar a aventura de sua vida se ainda hoje sinto falta das peripécias criadas pela minha imaginação há alguns muitos anos atrás? E como, depois de assistir ao belo filme, não me sentir tentado a fazer mais uma visita a esse meu mundo, que guarda em suas paredes multicoloridas os dias mais felizes da minha vida?

As brincadeiras de rua nunca foram suficientes para o pequeno Raphael e seu inseparável boné: não bastava rodar pião, soltar pipa, esconde-esconde e io-iô. Ele queria criar mundos, não importa como fosse. As pedras do seu quintal foram forçadas a se metamorfosear e ganhar vida, tornando-se, cada uma delas, um violento tiranossauro-rex, uma baleia jubarte e até um sapo gigante. Gabava-se da destreza com que pulava de uma para a outra, da agilidade com a qual transitava entre os muitos mundos dos limites do seu quintal. A obra ao lado da sua casa nunca poderia ser simplesmente uma residência em construção. Havia tardes em que ela navegava em mares turbulentos, na forma de uma barco predestinado a naufragar, graças a uma bomba armada por algum ardiloso vilão. A mesma obra podia tornar-se uma escola para as aventuras teen de uma galerinha que adora pintar o sete, como diria o narrador da Sessão da Tarde. E, no alto da megalomania de sua mente, tudo aquilo era uma ilha de pescadores pronta para acompanhar uma ávida história de amor entre uma modelo e um empresário - um roteiro nada infantil que o pequeno encenou sozinho, fazendo todos os papéis. Seu mundo muitas vezes não estava aberto para visitas, era necessário viajar sozinho e se perder em suas matas fechadas - representada tão bem pelo limoeiro no centro do quintal, ao lado do enorme pé de fruta-do-conde. Naquela época, correr sozinho pelo quintal não era sinal de tristeza e solidão. Era apenas a hora de ser egoísta e ter a aventura só para ele.

Mas bom mesmo era cruzar a cerca-viva que separava minha casa da do Léo Jaime e ir desbravar novos mundos. Juntos, inseparáveis, montávamos mundos em miniaturas no quintal dele, com todos os tipos de objetos possíveis. Quando Ritiele estava junto - e não estava chorando, sua especialidade - fazíamos nossa espetacular encenação baseada nos personagens do Senninha, reflexo do impacto causado pela então recente morte do piloto. Um pouquinho mais à frente havia a casa da Dona Lurdes, minha avó adquirida por empréstimo, de paciência infinita com a criançada que se acumulava na varanda da sua casinha. Era tanto amor pela velhinha que havia disputa para saber quem seria o primeiro a dar-lhe um beijo de bom dia - o que me fazia, muitas vezes, despencar para a casa dela às 6 da matina. Com doçura de dar gosto, lembro-me de seus olhos gentis, dos seus braços flácidos me rodeando e do carinho recíproco com que ela me recebia todas as manhãs. Lembro-me também de entrar em minha casa a passos sorrateiros e roubar alguns ovos da geladeira para que Dona Lurdes fizesse um delicioso omelete para todos nós. Improvisávamos uma festa e, dando uma breve pausa nas brincadeiras, devorávamos o omelete.

Em algum tempo, Léo e Riti se foram. Era hora de expandir os horizontes, aumentar os domínios do meu mundinho particular. Chegava agora à Rua Eugênio Couto e, rapidamente, adquiri um novo companheiro para minhas aventuras estapafúrdias: eu e Filipe construímos parques aquáticos para bonecos - época em que ele deixou uma calha cair da laje de sua casa e perfurar meu braço -, criamos telenovelas juvenis baseadas em livretos de conscientização do governo, romanceamos vídeo-games de luta (com participação especial de Peterson e sua irmã), redigimos revistas em quadrinhos, criamos toda uma série de monstros com os moradores ilustres do bairro, enfrentamos zumbis, fizemos corrida de litros pelo rio... Poderia inumerar por linhas e mais linhas por quantas aventuras Filipe foi meu fiel escudeiro, mas já ficou suficientemente claro que ele era engrenagem fundamental para o meu mundo criativo.

Outras peças importantes no tabuleiro da minha infância são Diego, Gustavo, Marcinho, Luiz (que hoje em dia é Gustavo), Carola, Carina, Diogo (onde quer que ele esteja) e por que não Josy, não é mesmo? Este post é dedicado igualmente a todos vocês que se tornaram marujos, piratas, bandidos, detetives e caçadores de zumbis por tantas e tantas vezes, mergulhando de cabeça num oceano de invenções malucas criadas por mim.

Contudo, uma hora a voz engrossa, o bigode cresce e a ingenuidade e pureza esvanecem, massacradas pela realidade, pelo compromisso, pela chatice que é se tornar adulto. Restam fotografias polaroide, dentro de sua mente, das viagens que você fez para um mundo que, agora, só existe na sua memória.

sábado, 2 de outubro de 2010

Música e Divagações: "Write About Love", Belle and Sebastian.


Faixa 1: I Didn't See It Coming

"(money makes the wheels and the world go round)
forget about it, honey"

Antes de qualquer outra coisa, dois avisos sempre válidos quando escrevo este quadro aqui no blog: eu não entendo quase nada de música, sou um mero apreciador sem conhecimentos profundos ou estudos sobre música. Portanto, tudo aqui é muito superficial - afinal, quem sou para analisar Belle and Sebastian, não é mesmo? Em segundo lugar, o Música e Divagações não é resenha, crítica ou artigo musical, mas simplesmente um espaço onde coloco um bom álbum para tocar e escrevo o que me vier à cabeça. Por isso, você, fã mala e super-indie que foi trazido até aqui pelos caminhos tortuosos do Google, ainda dá tempo de ir embora sem querer me matar com requintes de crueldade. Obrigado pela compreensão.

Ah, Belle and Sebastian! Lembro-me da primeira vez que ouvi uma canção deles, para vocês perceberem o quão importante é esta banda em minha vida. Estávamos eu e Bia¹ no Emi Esse Ene - a loira, que ganha o número 1 porque chegou primeiro; não quero brigas entre vocês duas - trocando figurinhas musicais, como sempre fazíamos. Conheci tantas bandas graças às dicas dela e acredito que também fiz boas indicações. Naquela noite, ela me perguntou se eu conhecia Belle and Sebastian. Minha resposta foi categórica: "Não conheço e nem quero conhecer". Sim, é verdade. eu reneguei uma das minhas bandas favoritas antes mesmo de conhecê-la.





Faixa 2: Come on Sister

"You could love
After all that's what you're looking for
You can love
It's a currency unspoken of."

Minha resposta tem um porquê, embora eu não saiba se esta é uma explicação válida: na época, adepto da vagabundagem, eu gastava minhas manhãs assistindo à programação matinal da Mtv. Era uma hora marginalizada onde eles comprimiam os clipes que o público-alvo não tinha interesse nenhum em assistir. Foi ali que tive a chance de conhecer bandas como Franz Ferdinand, Kings of Leon, Killers e Bloc Party, só para citar algumas. Vale ressaltar que há 5 anos atrás eu era um analfabeto digital e foi a Mtv que me salvou da alienação radiofônica.

E onde o Belle and Sebastian entra nisso?
Nessa época, o clipe de "Step into my Office, Baby" era presença certa em todas as manhãs. E eu simplesmente odiava a música, o clipe e tudo mais. Mas não se preocuparem, eu já corrigi esse pequeno deslize e hoje em dia eu adoro a música.

Faixa 3: Calculating Bimbo

Falando um pouquinho sobre o "Write About Love" antes de voltar à (nada) interessante narração sobre meu contato inicial com a música dos escoceses, "Calculating Bimbo" é, indubitavelmente, desde o primeiro momento que ouvi o álbum na íntegra, a minha música favorita deste sexto disco de estúdio. E pelos comentários que vi por aí no last.fm e no orkut, creio que não sou o único que pensa dessa forma. É uma das poucas canções que me passam sentimento de verdade, como os álbuns anteriores. Gosto da euforia de "Come on Sister" também, e "I didn't See it coming" é uma faixa direitinha, na linha. Mas a trinca inicial tem seu ápice com essa melodia maravilhosa de "Calculating Bimbo", com certeza. É uma pena que cheguemos a pensar que a coisa vai dar uma guinada e o álbum vai deslanchar, mas são expectativas frustradas, já vou avisando.

Faixa 4: I want the World to Stop

"I want the world to stop
Give me the morning, give me the afternoon
"The night.

Essa é uma das faixas que gosto bastante também. Gosto do ritmo da bateria e, de alguma forma, ela é uma das poucas que ainda me lembram o Belle and Sebastian clássico. Corrijam-me se eu estiver viajando bonito. E aproveite, povo, aproveite. O álbum vai desandar em poucos instantes.

Bom, então graças à faixa inicial de "Dear Catastrophe Waitress" eu reneguei o Belle and Sebastian num primeiro momento. Mas Dona Bia Fiola foi insistente e devo ser grato a ela por isso pelo resto dos meus dias: "Rollercoaster Ride" me foi enviada e "OMFG, que coisa linda é essa que você tá me passando, Bia?" foi o primeiro pensamento que me veio à cabeça. Logo depois ela me passou "Beautiful", "I'm Waking Up to us" e "Get Me Away from Here, I'm dying" e pronto. Já era amor.


Faixa 5: Little Lou, Ugly John, Prophet Jack (feat. Norah Jones)

Vocês sabem que bandas bacanas têm fãs chatos, né? Não sei como ninguém fez um estudo detalhado sobre isso ainda, vocês estão perdendo dinheiro. É porque não me sinto exatamente gabaritado, porque senão eu provaria essa tese. Basta pegar os fãs do Los Hermanos, do Belle and Sebastian e de meia dúzia de bandas indie que está tudo muito bem provado, é só assinar.

Mas então, imagina só a reação desse povo mala e xiita quando viram sua banda do coração dividindo o microfone com Mrs. Jones? Eita, foram espinhos para todos os lados. Antes mesmo de ouvir a música, já havia lido que era a pior faixa do Belle and Sebastian de todos os tempos. E de certa forma, o peso dessa opinião pesava todo para cima da pobre moça.

Agora, eu gostaria de saber: qual o problema com a gracinha da Norah, hein? Falta de talento não é, tenho certeza. Destoou do som dos escoceses? Também não acredito, a doçura da voz dela se encaixou bem na faixa, embora o Murdoch desse conta dela sozinho - isso é saudade da Isobel? Esse monte de cantora pelas faixas?

Eu acredito que o problema com a Norah Jones é pura e simplesmente a fama dela. A falta de status indie, de discos independentes e de shows para 200 pessoas. Portanto povo, Get Over It, please. Acho a faixa linda. E ponto.

Faixa 6: Write About Love.

"You've got to see the dreams through the windows
and the trees of your living room."

A faixa-título pra mim é o momento final do álbum. Sim, ainda faltam 5 faixas, mas tudo agora não passa de arranjos inexpressivos, música sem alma, canções que não fariam muita falta no mundo se não existissem. À primeira audição, tudo soou muito bacana para mim, afinal, esse é o primeiro álbum do Belle and Sebastian que presencio o lançamento - "The Life Pursuit" foi lançado em 2005, quando eu ainda não ouvia a banda. Mas depois de 2 ou 3 audições, comecei a notar que muitas das faixas eram tediosas. Não senti aquela vontade absurda de ouvir várias e várias vezes, excetuando "Calculating Bimbo". E pior ainda, o CD saiu na época em que eu tava descobrindo a música de Nina Simone. Foi uma disputa completamente desleal.


Faixa 7: I'm Not Living In The Real World.

Acho esta faixa uma bagunça, não gosto do refrão e tampouco deste vocal, que não sei de quem é. Se "Calculating Bimbo" está no extremo positivo, "I'm Living in the real World" está no exato extremo oposto. Espero sinceramente que eles não resolvam tocá-la no show, porque tem muita coisa dos álbuns anteriores que a gente prefere ouvir do que estas canções sem graças.

Voltando à história da entrada do Belle and Sebastian na minha vida - esse post tá uma zorra, Zeus do Olimpo! -, fui aos poucos baixando os álbuns da banda, depois da introdução feita pela Bia e, então, finalmente me deparei com o "If You're Feeling Sinister". Sim, foi um momento sublime. Perfeito na íntegra, ouvi à exaustão e de lá saiu a maioria das minhas canções favoritas da banda. Comecei a comprar os álbuns e dvd's e, quando percebi, tinha uma pequena coleção de material dos escoceses. Aos poucos, viravam uma de minhas bandas favoritas.

faixa 8: The Ghost Of Rockschool.

Falando nos shows, os escoceses desembarcarão em terras brasileiras nos dia 10 e 12 de Novembro para dois shows em São Paulo e no Rio, respectivamente. Eu sei que perder este show pode ser atestado como retardamento mental - não para quem perdeu o show do Damien Rice, né? -, mas eu ainda não tive certeza absoluta se poderei ir. Estou mobilizando empréstimos com agiotas e quem saiba eu desça a serra andando, não é mesmo? Essa vida de universitário não tá fácil.

Faixa 9: Read the Blessed Books.

Eu acho essa faixa muito bonitinha. Gosto do violão dedilhado e da doçura da voz do Stuart. E por falar nessa doçura tão característica do Belle and Sebastian, banda pouco indicada para diábeticos musicais, talvez aí esteja o meu problema parcial com esse álbum. Estou em uma época nada doce da minha vida, beirando a infelicidade, de verdade. E, embora escrever sobre o amor seja uma ótima ideia, não faz parte da minha verdade neste momento.

Então, não descarto a possibilidade de daqui a alguns meses (eu não posso falar anos; meu coração não aguentaria tanto tempo) pegar este álbum para ouvir novamente e cada notinha dele fazer o mais pleno sentido. A música, muitas vezes, segue a direção dos nossos sentimentos, e precisamos estar atentos a isso quando ouvimos certa banda.

Faixa 10 - I Can See Your Future.

Portanto, se fosse para escolher uma música do Belle and Sebastian para definir como ando me sentindo, seria essa aqui:

"I don't love anyone. Not even Christmas. Especially not that.
I don't love anyone."

Uma postura um tanto pré-adolescente revoltado, mas cada um cuida do que traz dentro do coração, não é mesmo?


Faixa 11: Sunday's Pretty Icons

Também gosto bastante desta faixa que fecha o álbum. "Write About Love" não é um disco ruim, se você conseguir separá-lo de uma discografia que inclui duas obras-primas como "If you're feeling Sinister" e "Tigermilk". Mas se um amigo, algum dia, quiser começar a ouvir Belle and Sebastian e pedir uma dica de por qual álbum começar, nunca a resposta será "Write About Love", porque ele não traz a essência de uma banda tão bonita e emblemática. Mas, se for possível deixar o saudosismo de lado, você pode ter momentos divertidos e agradáveis com esse sétimo álbum da banda. Boa audição!

domingo, 5 de setembro de 2010

10 coisas para fazer antes de morrer.

Não estava nos planos assistir a um filme triste neste fim de semana, mas parece que este é um dos típicos casos onde o filme te escolhe, e não o contrário. Sem sentimentalismo barato, sem pieguice ou dramalhão mexicano, "Minha Vida Sem Mim", de 2003, é o tipo de filme que te leva a uma reflexão verdadeira sobre sua própria vida, sobre o que você está fazendo com ela e o que você está perdendo, mesmo sabendo que seu tempo aqui é breve e finito.

Eu devia ter mantido uma garrafa de Gatorade por perto, porque confesso que acabei de assistir ao filme desidratado. É o tipo de película que comprime seu peito, que tira seu ar pela sinceridade do texto e das atuações. Foi doloroso assistir, essa é a verdade. Foi um soco na cara diante de tudo que passei nas últimas semanas (vide posts anteriores) mas, ao mesmo tempo, foi um impulso generoso para a minha necessidade gritante de viver.

Não farei sinopse, resumo, crítica, nada do gênero. Gostaria apenas de citar uma das cenas mais destrutivas para esse pequeno bobão sentimental que vos fala, quando Ann senta-se numa cafeteria, depois de saber que tem apenas 3 meses de vida, e lista as 10 coisas que ela precisa fazer antes de morrer. O mais perturbador nessa cena é que ela era uma moça jovem, com toda uma vida pela frente, mas que encontrava-se estagnada numa existência que precisou, paradoxalmente, da iminência da morte para ganhar vida.

Baseado nisso, fiz a minha singela lista das 10 coisas que pretendo fazer antes de deixar esse mundo. Porém, podem ficar despreocupados: eu não esperarei adquirir uma doença crônica para realizá-las. Promessa.

10 coisas para fazer antes de morrer.
  1. Amar. De todas as formas possíveis, com toda intensidade existente e inexistente. Sentir aquela necessidade sufocante por outra pessoa, que só sacia quando você está com ela, depositar todas os sentimentos puros e bons que existem dentro de mim em uma pessoa apta e merecedora de recebê-los;
  2. Estudar na Irlanda e conhecer a Europa. Ver o mundo, saber que a vida vai muito além dos quatro limites da minha cidade natal;
  3. Me esforçar cada vez mais para conhecer as pessoas que me cercam e me amam, e oferecer a elas apenas o que há de melhor em mim;
  4. Fazer algo de bom pelo mundo. Sei que soa piegas e simplório, mas é um desejo meu;
  5. Adotar 2 cachorros que receberão os nomes de Belle e Sebastian (houve toda uma reflexão sobre o segundo nome, mas resolvi que não o mudarei por insignificâncias);
  6. Fazer todas as loucuras das quais me privei (e ainda me privo), mesmo que seja fora do tempo correto, mesmo que eu pareça um tiozão besta se achando adolescente. Tudo que me faltou coragem quando era jovem ainda será feito;
  7. Mochilar pelo Brasil;
  8. Assistir aos shows de todas as bandas que significam tanto para mim, principalmente Kings of Convenience, Damien Rice e Belle and Sebastian. Mesmo que eu tenha que caçá-los pelo globo, já que perdi suas apresentações aqui no Brasil;
  9. Realizar-me profissionalmente em algo que realmente seja prazeroso, uma profissão onde eu me encaixe, me sinta cumprindo o que realmente vim fazer aqui;
  10. Deixar de usar boné. O que acabaria com o conceito e nomenclatura do blog, mas é necessário fazer sacrifícios na vida.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

fim da hibernação.

maybe the sun will shine today.
the clouds will roll away.

maybe i won't feel so afraid.

i will try to understand... either way.
(wilco)

Foram dias longos e frios de inverno, talvez o mais frio de todos que eu já presenciara. O vento cortante da serra congelava os traços de nossas faces, enquanto um arrepio mórbido e estranho subia-nos pela espinha, tomando conta de todos os sentidos de nossos corpos. Contudo, não foi apenas o frio exterior que caracterizou esse rigoroso inverno. Houve uma sensação térmica glacial que nem o mais felpudo dos casacos conseguiria conter, uma necessidade de calor humano que não emanou de canto algum. Não houve opção senão me recolher para hibernar.

Passei 28 dias trancados em minha caverna, um quarto escuro e úmido que incrementava a sensação de frio. Foram necessários muitos cobertores para amenizar tanto frio e confesso que esporadicamente eu mirava a janela, com uma esperançosa torcida para que flocos de neve embaçassem o vidro. Devaneios de uma mente um tantinho atormentada. Durante a semana, eu rolava a grande pedra que obstruía a entrada da caverna e ia cumprir meus compromissos com o trabalho e a faculdade. Não havia vontade, não era algo que me dava prazer, e executava tais obrigações já almejando a volta para a caverna. A trilha-sonora foi composta basicamente pelo álbum homônimo do Songs: Ohia. A melancolia de Jason Molina merecia até um "Música e Divagações" e esse álbum ganhou uma importância instântanea na minha discografia básica - já é, segundo os dados certeiros do last.fm, o álbum que mais ouvi nos últimos 6 meses.

A hibernação é, acima de tudo, um momento íntimo, de contato consigo mesmo. E, depois de tanto tempo, eu voltei a me sentir de uma forma que achei ter ficado num passado não tão distante. Voltaram as caminhadas nas tardes ensolaradas de domingo, as tardes vazias, o sentimento de solidão que faz o mundo parecer enorme demais. Os sentidos ficam aguçados, você passa a sentir as coisas de uma forma diferente, ver as coisas por uma outra ótica. A cabeça se torna uma metrópole em horário de rush, tamanha é a quantidade de pensamentos que a cruzam, se esbarrando com violência, causando um estúpida sensação de embriaguez, mesmo sem ver qualquer quantidade de bebida alcoólica há algum tempo. Não há tristeza. Você está apático demais para sentir-se triste. Há uma forte melancolia (des)colorindo tudo de bege, enquanto você sente a vida esvaindo-se lentamente pela fresta da janela entreaberta. Mas o inverno sempre passa, de uma forma ou de outra.

E quando os primeiros raios do sol primaveril lhe convidam, você se sente tentado a deixar o aconchego de sua caverna e ir apreciar o que o mundo tem a oferecer. Neste momento, eu estou voltando a me sentir vivo, a sentir o sangue correndo com pressa pelo meu organismo. Não sou o mesmo de 28 dias atrás, tenho novos pontos de vista, novos conceitos, novas verdades. E como principal lição disso tudo, aprendi que nunca devemos desaprender a ser sozinhos. A solidão está sempre nos espreitando, esperando um momento de vulnerabilidade para fazer moradia em nossas vidas. E quando você já está preparado para receber essa visita, tudo torna-se muito mais fácil de ser superado.

E quando o céu estiver nublado e os dias chuvosos parecerem não ter fim, há uma música do Wilco que sempre fará o mais perfeito sentido:

"talvez o sol brilhará hoje..."


ps: a analogia com a atitude dos ursos não tem qualquer relação com a quantidade exacerbada de pelos do meu corpo. sério. ¬¬'

domingo, 22 de agosto de 2010

conversas.

- Então é isso.
- Exatamente. Como diria Morrissey: “I was happy on a haze of a drunken hour, but heaven knows I’m miserable now.”
- Para com isso.
- O quê?
- Com essa coisa de ficar citando Smiths, Beatles e outras porcarias depressivas. Você está me irritando profundamente com essa mania idiota.
- Não é mania. Eles apenas expressam coisas que eu sinto.
- Você não sente nada. Do jeito que você é medíocre, sequer deve conseguir apreender o que eles querem dizer. Assiste a filmes com seu olhar superficial, lê livros de forma simplória, achando que são apenas um monte de palavras emboladas, sem entender o que está entrelinhas. Portanto, dá um tempo, okay?
- Ei, por que você está ficando tão irritado?
- Porque você é um ser humano frívolo e irritante, é por isso. E Eu não suporto mais esse monte de baboseira sem fundamento algum que você aponta como motivo dessa tristeza descomedida. Você é o típico caso do defunto que cava a própria cova, se enfurna lá e, em seguida, joga terra sobre o próprio corpo.
- Não fala do que você não entende.
- Eu entendo perfeitamente, não pense o contrário, seu covarde. Entendo com limpidez ímpar essas suas escusas esfarrapadas de que esta cidade está te matando aos poucos, mas que você está preso aqui, com raízes profundas demais. Suas raízes são a covardia, a falta de coragem de arriscar algo novo pela primeira vez. Não há faculdade ou trabalho que justifique esse definhamento interior pelo qual está passando. Isso é pura e simples covardia.
- Por que você fala com tanta arrogância, com tanta raiva?
- Porque eu sou o único que fala a verdade para você. Todos aí com esse papinho que você tem potencial, que tem que explorar isso. Pois eu vejo plenamente a mediocridade que você embala numa bonita ornamentação, mas que não engana quem consegue ver um pouquinho mais profundamente. Lembra-se da professora, que disse que você era um pavão? Ah, ela só queria explicar a metáfora, não é mesmo? Mas você sabe que não. Acho que mais alguém notou que você é um exibicionista dessa mediocridade tão sua, não é mesmo? E você sabe que aquilo te machucou, sabe que seus olhos encheram-se de água e você não conseguiu olhar mais nos olhos dela durante toda a aula. A verdade dói, não é mesmo, meu querido?
- Você não está ajudando muito.
- Você não merece ajuda. Perceba como faz três semanas que está afundado nessa maldita cama – excetuando os momentos em que cumpre seus honrados compromissos com os números e as letras. As pessoas estão indo. Não estão suportando essa sua inclinação estúpida por misericórdia. Ninguém vai ter pena de você. Não há motivo para ter pena. Erga-se e mostre-se um ser humano digno das pessoas que lhe cercam.
- Eu sou um ser humano da solidão e você sabe disso. Como a Ágatha disse da primeira vez que me viu: “O Rapha é um lobo solitário.” Sempre fui sozinho, sempre me virei bem comigo mesmo. Foi estupidez me desacostumar com isso. “Não é sadio acostumar-se com a luz quando somos fadados a viver no breu”, foi o que li por aí. Mas meu peito está voltando a ficar tranquilo novamente.
- A escolha foi sua, sabia?
- Não houve escolha. A solidão é imposta, não escolhida.
- Não foram poucas as pessoas que tentaram te amar, te dar um pouco de carinho, estar com você, te sentir. Mas do alto de sua arrogância, você expurgou todas elas, como se fossem bactérias nocivas a sua apreciada saúde.
- ISSO NÃO É VERDADE!
- Não me vem de novo com esse papo de que você não sabe por que acontece, que é um sentimento involuntário. E nem vem colocar a culpa novamente no pobre praiano lá, dizendo que ele te tornou uma pessoa fria. Isso é tudo baboseira que não cola comigo.
- Então, você me vê como um ser humano dos menos honrados, não é mesmo?
- Te vejo apenas como ser humano, nem menos nem mais nada. Só consigo te ver cristalinamente e tento te alertar pras armadilhas que estás armando para si próprio. Erga-se, rapaz. Já passou da hora.

Ele continua trancado no quarto. No escuro. Sozinho.