domingo, 12 de junho de 2011

quarto 307.

“sharing different heartbeats in one night.”
(José González)


Eu queria, neste momento, ter a habilidade de te romancear da forma que mereces. Talvez, dessa forma, você conseguisse compreender a ansiedade que vinha assolando meu coração antes de encontrar-te próximo da livraria, com o semblante sério e as mãos nos bolsos. Se eu tivesse a habilidade dos grandes escritores, escrever-te-ia o poema que prometi em nossas andanças pelo Rio de Janeiro, com as pernas doloridas e o sol outonal brilhando sobre nossas cabeças. Até mesmo far-te-ia uma canção para dizer, acompanhado mais doce melodia que um violão dispusesse, que você não me aqueceu apenas do frio: aqueceste minha alma com um dos dias mais memoráveis da minha vida.

Falta-me, entretanto, domínio suficiente sobre o mágico poder das palavras para descrever-te apropriadamente. Não sei como falar dos seus olhos, ora tão transparentes e acalentadores, ora indagadores, taciturnos, herméticos. Olhos convidativos, castanho-claros pela tarde, misteriosos e esverdeados pela manhã. Olhos que me encontravam e me acolhiam, olhos que paqueravam os meus e me traziam uma serenidade que nada antes conseguira trazer.

Brincamos de ser felizes, independentemente do mundo que ornamenta nossa vida real. Fomos namorados por um dia, andamos de mãos dadas, discutimos a relação, demonstramos ciúme, compartilhamos medos, opiniões e a conta do café. Você deitou-se no meu colo e assistimos a desenhos animados num domingo de manhã; eu senti dores nas costas e você improvisou uma massagem desengonçada. Gastamos bilhares de horas sob o chuveiro quente, seu rosto sorridente e molhado me encarando em meio ao vapor. Pegamos ônibus sem rumo pelos bairros do Rio, escolhemos aleatoriamente a estação do metrô, te levei para ver a praia, embebedamo-nos num botequim com gente chata e rica. Foram tantos os detalhes insignificantes que, não obstante, no fim de tudo, são as mais doces memórias que perduram.

Contudo, eu sabia desde o começo que se tratava de felicidade efêmera, de um momento sublime que se dissiparia com o tic-tac impiedoso do relógio. Era ainda tarde de sábado quando, deitado do seu lado, “Skinny Love” do Bon Iver tocando ao fundo, lágrimas romperam-se pelo meu rosto, velozes o suficiente para que não conseguisse escondê-las de ti. Você me abraçou forte, quis saber o que acontecia, e só pude confessar bem mais tarde, enquanto caminhávamos lado a lado na rua: ninguém nunca havia tratado meu coração tão bem quanto você tratou.

Era necessário dizer tchau e, na manhã de hoje, com o rosto encharcado, abracei-te e te vi entrar apressado no ônibus. Pude acompanhar sua silhueta por uma última vez, procurando o assento, mas não aguentei esperar o ônibus partir. Embora fosse nossa promessa não deixar machucar, mesmo com todos os seus avisos e preocupações, quando peguei o ônibus de volta para minha vida, 40 minutos depois de sua partida, ainda havia lágrimas nos meus olhos. Lágrimas de quem, pelo menos por um dia, pôde experimentar a sensação de ter tudo que sempre quis nas mãos.