quarta-feira, 21 de setembro de 2011

crônicas de rodoviárias.

O ônibus estacionado na plataforma, o sol a pino transpondo o alto telhado e dourando o chão empoeirado. Desço, endireitando a gravata, os passageiros afoitos já se enfileirando organizadamente à porta com suas malas abarrotadas, suas conversas irrelevantes e suas expressões ansiosas. Passagem à mão, confiro, destaco, deixo subir. Procuram seus lugares, se amontoam pelos corredores analisando minuciosamente os números, lançam as mochilas no bagageiro e se acomodam nas poltronas felpudas.

Aproximam-se dois jovens abraçados, os olhos encharcados e doidamente vermelhos, as mãos tentando encontrar-se no labirinto de tristeza em que estão perdidos. O voyeurismo é parte involuntária do ofício: as inúmeras despedidas que assisto do meu camarote improvisado à porta do ônibus, em cada rodoviária que paro, os adeuses comovidos, os últimos beijos antes que os lábios sejam separados pela longa estrada. Tento ser imperceptível nessas horas, evito violar o último segundo de intimidade entre os amantes que sofrem com a eminência da ausência. Torno-me parte das colunas de ferro maciço que sustentam a estrutura, abdico de minha humanidade por respeito à dor dos passageiros.

O rapaz mais alto envolve o outro, que usa um boné afundado na cabeça, com seus braços, apertando-o forte contra o peito. Estão parados no meio do pátio quase vazio e, aparentemente, não se importam com alguns olhares curiosos que se intrometem violentamente na tristeza que os consome. Trocam as últimas palavras, as quais não consigo ouvir da distância que me encontro — embora não me interessasse ouvi-las, de qualquer forma — e o rapaz mais alto saca a passagem do bolso, intencionando subir no ônibus. Beijam-se uma última vez. Abraçam-se e as lágrimas se misturam, enquanto ele me passa o papel. Cumprimento-os com um meneio de cabeça rápido e libero a entrada do rapaz no ônibus, devolvendo-o o canhoto. Sobe os degraus lentamente, acena do topo para o rapaz de boné e some no túnel de assentos para procurar o teu.

Tenho a impressão estranha de conseguir ouvir as batidas do coração do rapaz de boné, num ritmo frenético e angustiado. Ele se afasta, leva as mãos trêmulas ao rosto para descortinar os olhos das lágrimas grossas, apóia a cabeça num balcão pertinentemente colocado ali e deixa toda sua tristeza transformar-se em água. Vejo discretamente os dois se comunicarem através do vidro do ônibus, os olhos se encontrando, as mãos gesticulando as palavras que não podem ser ouvidas. Olho para o relógio. Ainda faltam 5 minutos. Aproximo-me, não posso evitar. Toco o ombro do rapaz.

— Sobe lá. Eu te chamo quando for sair.

Ele me agradece veementemente com um aceno de cabeça, os dedos enxugando as lágrimas que não deixam de correr seu rosto. Os passos são desnorteados ao subir a escada. Atravessa o corredor sob os olhares atentos de uma platéia não convidada para o espetáculo e, timidamente, com os olhinhos tristes e apertados, encara o rapaz que tanto ama. Senta-se ao lado dele, apóia a cabeça em seu peito, sente-o por uma última vez. O outro o abraça com carinho e, com um lenço de papel, seca as lágrimas do rapaz desolado.

Ficam ali, abraçados, pelos cinco minutos que lhes restam. Com o tempo, depois de ver tantas despedidas, nós, motoristas de ônibus, acabamos descobrindo que, em rodoviárias, o tempo tem um jeito próprio passar.

4 comentários:

Alexandre Valadão disse...

todos chora

Anônimo disse...

Seus textos me comovem, me sinto muito bem quando os leio, parabéns.

Beto disse...

Você são namorados, ou algo parecido? (sem querer ser indiscreto)

rapha. disse...

anon: obrigado pelas palavras, querido. fico feliz de te tocar de alguma forma, de verdade.

beto: não, não somos namorados.
só pessoas que tiveram suas vidas cruzadas de alguma forma.