quarta-feira, 17 de agosto de 2011

manhã de domingo.


Rompe a manhã pelas frestas da persiana. Despertas ao meu lado e me questiono por que já estou tão habituado com teus gestos matinais: a forma como enches o pulmão de ar, engoles em seco a saliva e, subitamente, abres os olhos e me encara, com um sorriso displicente e doce. Encantam-me teus olhos pela manhã, a forma como se apropriam da luz e tornam-se janelas multicolores, ora amendoados, ora atenuados em um verde opaco e sereno. Servem-me de espelho. Olho-os fixamente e vejo-me refletido, vejo os meus ainda tingidos de vermelho das lágrimas causadas à noite passada pela saudade, embora ainda estejas aqui comigo. Sinto tua falta antes mesmo de partires, e esforço-me para não derramar novas lágrimas no travesseiro. Apenas quero me ver em teus olhos, talvez por ser uma das poucas vezes que gosto de olhar para mim mesmo. Refletes-me em tua sinceridade tão cristalina e consegues captar, talvez, a parte que não consigo ver refletido em outros lugares. Gosto do que sou quando me vejo em teus olhos. É isso.

Elas surgem em minha boca enquanto nos vestimos: três palavras que roçam na minha língua, misturam-se com a saliva, esforçam-se para sair. Caminhamos pelos labirintos de concreto, teus passos precisos guiando os desajeitados meus, que tentam reconhecer as ruas que se cruzam. Adoço as palavras com o café quente. “E se me achares besta? E se ficares desconcertado, sem saber o que dizer, e tivermos um daqueles momentos embaraçosos que estragaria toda a aura onírica que vinha embrulhando o fim-de-semana?” Apoio a cabeça sobre o balcão e aproveito os últimos momentos da tua voz ressoando em meus ouvidos. Nossos sotaques entrelaçam-se, espiralam e se confundem em meio às risadas. Os raios do sol nos alcançam na avenida, andando lado a lado, a caminho da despedida. Engulo as palavras — seriam elas realmente necessárias?

O ônibus parado, o adeus doloroso, umedecido de lágrimas. Subo, procuro o assento, vistas embaçadas pela água que se esvai, o aperto no coração. Continuas ali, parado na plataforma, estático, levando a mão ao rosto para evitar que as lágrimas rolem. Lágrimas, que lavam meu reflexo dos teus olhos. Preciso que me vejas mais um momento, para que guardes minha imagem em teus olhos até a próxima vez. Atravesso o corredor, desço os degraus, beijo-te e largo-me em teu ombro, molhando teu pescoço. As três palavras insistem em tentar sair, amarram-se aos soluços, rebelam-se contra meus dentes cerrados. São inúteis, todavia. São óbvias, pleonásticas, repetições estúpidas daquilo que tu já tens certeza. Dissipam-se lentamente em minha língua, enquanto sinto, por um último momento, o calor dos teus braços em torno de mim.


Um comentário:

babs disse...

oi amor! só para te lembrar q eu existo e dou mts incentivos a atualizações